Um novo relatório científico publicado pela revista The Lancet avisa que as alterações climáticas estão a agravar os impactos na saúde dos europeus, e os números não deixam margem para dúvidas.
Elaborado por cerca de 300 investigadores coordenados pela University College London, o Countdown Europe 2026 monitoriza os efeitos das mudanças climáticas na saúde, bem como o impacto das medidas de adaptação e mitigação a nível económico e financeiro.
O calor está a matar mais
Em 99,6% das regiões europeias monitorizadas, registou-se um aumento do número de mortes associadas ao calor no período 2015–2024, face a 1991–2000.
No mesmo intervalo de comparação, a exposição ao calor cresceu 254% e o número médio anual de horas em que essa exposição tornou a atividade física perigosa subiu 88%.
Problemas para a saúde: fome, doenças e desigualdades
Em 2023, mais de um milhão de pessoas adicionais foram afetadas por insegurança alimentar moderada ou grave na Europa, acima da média anual de 1981–2010, como consequência do aumento das ondas de calor e da seca.
As alterações climáticas impulsionaram, também, na última década, a expansão geográfica de vetores de doenças infeciosas e surtos mais frequentes.
O exemplo mais expressivo é a possibilidade de transmissão da febre dengue, que aumentou 297% face ao período de referência 1980–2010.
O relatório científico publicado pela revista The Lancet alerta ainda para a desigualdade na distribuição destes riscos, com as populações mais pobres a serem as mais afetadas pelas ondas de calor:
- Tendo maior probabilidade de sofrer insegurança alimentar ;
- Enfrentando riscos mais elevados de incêndios florestais;
- Tendo menos acesso a espaços verdes.

Combustíveis fósseis são um problema que não desaparece
A dependência europeia dos combustíveis fósseis continua a custar caro.
Os subsídios governamentais europeus a estas fontes de energia atingiram os 444 mil milhões de euros em 2023, mais do triplo do valor de 2016, ano a seguir à assinatura do Acordo de Paris, devido à necessidade de proteger as populações dos aumentos dos custos energéticos provocados pela guerra na Ucrânia.
A queima de biomassa é outro ponto negativo, por agravar a poluição atmosférica e a perda de floresta.
O relatório recomenda uma transição mais rápida do aquecimento residencial para alternativas mais limpas, como as bombas de calor.

Impacto na saúde é inegável, mas nem tudo são más notícias
Entretanto, o mesmo relatório indica que a quota de energia renovável no total do fornecimento elétrico passou de 8,4% em 2016 para 21,5% em 2023.
O investimento em energias limpas subiu 86%, de 229 mil milhões de euros em 2015 para 427 mil milhões.
No sentido contrário, o investimento em combustíveis fósseis caiu 32%, de 112 para 76 mil milhões de euros entre 2015 e 2024.
Ainda segundo o relatório, apesar do crescimento do número de estudos científicos sobre a relação entre clima e saúde, regista-se um declínio “preocupante” do empenho individual, político, empresarial e mediático nesta área.



















