Volkswagen em apuros: China pode ser a única saída para salvar fábrica alemã
A icónica fábrica da Volkswagen em Zwickau, reconvertida há apenas seis anos para produção exclusivamente elétrica, enfrenta um futuro incerto. Com linhas de produção subutilizadas e milhares de postos de trabalho em risco, o ministro da Economia da Saxónia, na Alemanha, lançou uma proposta que está a dividir opiniões.
Em 2019, a Volkswagen investiu cerca de 1,5 mil milhões de euros para transformar a fábrica de Zwickau numa das primeiras unidades de produção exclusivamente dedicadas a veículos elétricos na Europa.
Na altura, foi apresentada como um projeto-modelo, um símbolo da aposta da empresa na mobilidade do futuro. Hoje, a realidade é bem diferente.
As linhas de produção não estão a trabalhar em plena capacidade e a fábrica, que empregava cerca de 8000 trabalhadores no final do ano passado, encontra-se na lista de unidades que o diretor-executivo, Oliver Blume, colocou em causa.
Atualmente, em Zwickau, produzem-se o ID.3, o Audi Q4 e-tron e o Cupra Born. Contudo, está previsto o desmantelamento de pelo menos uma linha de produção e a transferência do modelo da Volkswagen para Wolfsburg.

Uma proposta arrojada
Neste contexto, Dirk Panter, ministro da Economia, Trabalho, Energia e Proteção Climática da Saxónia pelo Partido Social-Democrata, avançou com a ideia de trazer fabricantes de automóveis chinesas para produzir em Zwickau.
Em declarações à Bild, citadas por outros meios de comunicação alemães, Panter partilhou que “é melhor desenvolver a competência industrial da empresa na Saxónia e assegurar a produção do que lutar numa batalha perdida e perder criação de valor.
Temos de andar com os tempos. Por isso, a China é uma oportunidade para Zwickau.
O ministro imagina esta colaboração como uma joint venture entre a Volkswagen e uma fabricante chinesa, que utilizaria as linhas de produção atualmente desocupadas para fabricar veículos na Saxónia, respeitando as normas e padrões europeus.
O nosso critério não é a ideologia, mas a viabilidade industrial futura e a segurança dos postos de trabalho da Volkswagen na Saxónia.
Assegurou o ministro da Economia alemão, que não está sozinho nesta batalha.

Também Olaf Lies, ministro-presidente da Baixa Saxónia, já tinha sugerido algo semelhante para outras fábricas da Volkswagen, e o próprio Blume tinha mostrado estar aberto à hipótese de carros chineses saírem das linhas de montagem da Volkswagen.
Conforme partilhado pela imprensa alemã, os nomes que circulam como potenciais parceiros são os habituais da ofensiva chinesa na Europa: BYD, Geely e SAIC, marcas que estão a entrar com força no mercado europeu.
Os riscos de um “lobo em pele de cordeiro”
Entre os especialistas, a ideia do ministro é encarada com desconfiança. O analista do Bank of America, Horst Schneider, por exemplo, usou uma metáfora para descrever o risco: a Volkswagen poderia estar a acolher um “lobo em pele de cordeiro”.
De facto, abrir uma fábrica europeia de topo a uma fabricante chinesa pode significar transferência de conhecimento tecnológico, perda de controlo sobre processos produtivos e, a longo prazo, o reforço da competitividade de rivais diretos.
Há ainda a questão económica, pois os salários alemães e os custos de produção europeus dificilmente serão compatíveis com os modelos de negócio das fabricantes chinesas, que constroem a sua proposta de valor sobre preços baixos.
Um setor sob pressão
Restando esperar por decisões mais concretas, importa analisar que a proposta do ministro Panter é, acima de tudo, um sinal dos tempos.
A fábrica que foi apresentada como bandeira da transição elétrica europeia pode vir a tornar-se o palco de uma das mais simbólicas cedências da indústria automóvel alemã.
Para os milhares de trabalhadores de Zwickau, o que está em causa é manter os postos de trabalho. Para o resto da Europa, a questão pode revelar-se mais complexa.



















