Excesso de confiança dos condutores pode estar a comprometer a segurança nas estradas
Um novo estudo global revela um fosso entre a forma como os condutores percecionam a sua segurança na estrada e a avaliação feita por quem trabalha na área.
O relatório "Safety in Motion: Driving Trust in Modern Mobility", elaborado pela Economist Enterprise com o apoio da Brembo, ouviu mais de 6100 pessoas (entre elas, mais de mil profissionais do setor dos transportes) em dez mercados automóveis de referência: Brasil, China, França, Alemanha, Índia, Itália, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e Estados Unidos.
Segundo os dados, 90% dos condutores dizem sentir-se seguros nas suas viagens diárias. Contudo, entre os especialistas em segurança rodoviária, essa confiança cai para apenas 45%.
Este fosso de 45 pontos percentuais entre perceção e realidade pode estar, segundo os investigadores, a comprometer os esforços para reduzir os 1,2 milhões de mortes registadas anualmente nas estradas de todo o mundo.
Quatro perfis e quatro riscos diferentes
O estudo divide os países analisados em quatro grupos, consoante o padrão de confiança encontrado:
- Os otimistas: Brasil, China e Índia;
- Os guardiões: Coreia do Sul e Japão;
- Os pragmáticos: França, Alemanha e Itália;
- Os negociadores: Reino Unido e Estados Unidos.
O desfasamento é particularmente acentuado em mercados automóveis emergentes como o Brasil, a China e a Índia.
Nestes países, 94% dos condutores afirmam sentir-se seguros, apesar de a taxa de mortalidade rodoviária rondar os 16,2 mortos por cada 100 mil habitantes, praticamente o dobro da média global de 8,1.
Do lado dos profissionais, apenas 18% mostram confiança elevada na segurança atual destes sistemas de mobilidade.
Segundo o estudo, citado por vários órgãos de comunicação internacionais, isto explica-se pela rapidez com que infraestruturas, tecnologia automóvel e serviços de mobilidade urbana têm evoluído nestes mercados, uma evolução que parece ter melhorado a perceção de segurança mais depressa do que os resultados reais no terreno.
Mesmo na Europa, onde as taxas de mortalidade são as mais baixas do estudo, o problema persiste. Países como França, Alemanha e Itália registam um fosso de 39 pontos entre a confiança dos condutores e a dos profissionais, sinal de que a desconfiança em relação a tecnologias mais opacas ou sobrevalorizadas atravessa também os mercados mais maduros.
O foco do risco já não é mecânico, mas sim tecnológico
Um dos dados mais reveladores do estudo é que as falhas mecânicas deixaram de ser vistas como a principal ameaça na estrada. Apenas 3% dos profissionais do setor apontam defeitos nos veículos como causa relevante de acidentes.
Em vez disso, 30% identificam o uso incorreto ou a má compreensão dos sistemas de assistência à condução (em inglês, ADAS) como o principal fator de risco, enquanto 24% culpam funcionalidades que acabam por distrair o condutor.
Quase dois terços dos profissionais consideram ainda que a publicidade tende a exagerar as capacidades destes sistemas, transmitindo a ideia de que é preciso menos atenção ao volante, o oposto do que deveria acontecer.
Muitos condutores não compreendem as capacidades reais dos sistemas de condução automatizada. Não devemos assumir que a tecnologia pode substituir a nossa atenção.
Resumiu Jean Todt, enviado especial do secretário-geral das Nações Unidas para a segurança rodoviária e antigo responsável pela Peugeot, Ferrari e FIA, durante uma conferência de imprensa a 8 de julho, conforme citado pelo Automotive News.
Confiança sim, mas com os olhos na estrada
Apesar do otimismo generalizado, o estudo mostra que há vontade de mudança: 88% dos inquiridos afirmam estar dispostos a apoiar medidas de segurança mais rígidas, como limites de velocidade mais baixos e fiscalização reforçada, bem como a pagar mais por sistemas de mobilidade mais seguros.
A mensagem central dos investigadores é a de que a confiança dos condutores é essencial para a mobilidade do futuro, mas só faz sentido se estiver alicerçada em dados reais de segurança, e não apenas na perceção.
À medida que os veículos se tornam mais conectados e automatizados, fechar este fosso entre confiança e realidade pode ser tão importante como o próprio desenvolvimento das tecnologias.
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Em Portugal a confiança é 110%.
Certíssimo! Como se conduz por estas estradas fora até fico espantdo que a percentagem seja tão baixa.
A UE de certeza que está a fazer legislação para diminuir a confiança dos condutores (sarcasmo)
Ignorantes com confiança é o que há mais neste mundo, alguns confiam no Deus outros não têm mesmo noção!
“…ADAS) como o principal fator de risco, enquanto 24% culpam funcionalidades que acabam por distrair o condutor…”
Yup, então teslas é fugir deles, conforme referido noutro post. É q nem dá hipótese de interpretação, estancam do nada sem pré -aviso.
+1 Antes dos teslas as estradas eram mais seguras existiam 0 acidentes e 0 mortes. Mais uma coisa que veio com os Elektros
Referido por si que nunca conduziu nenhum ?
– “1,2 milhões de mortes registadas anualmente nas estradas de todo o mundo”
– Mas estima-se que existam cerca de 1,4 mil milhões de automóveis e comerciais ligeiros. Somando camiões e autocarros pesados e motociclos são 1,6 mil milhões
– Isto dá 1 morto por cada 1.430 veículos em circulação, a nível mundial.
– Em Portugal, em 2024, houve 474 mortos na estrada. O parque automóvel anda pelos 6,5 milhões de veículos (ligeiros e pesados).
– Isto dá 1 morto por cada 13.713 veículos, em Portugal.
A desproporção é enorme, mas os números estão certos. É a própria OMS que diz que: “92% das mortes ocorrem em países de baixo e médio rendimento, apesar destes concentrarem apenas cerca de 60% da frota mundial de veículos.”
Ou seja, o principal problema para reduzir os 1,2 milhões de mortos na estrada não é o excesso de confiança – é, nesses países, melhorar as estradas e a segurança dos veículos. Isso do excesso de confiança por causa dos avanços na tecnologia é coisa de ricos.
–
quem se lembra de há semanas atrás eu ter comentado precisamente isto num artigo qualquer de motas e me chamaram maluco?
até disse que o meu sentimento não era só em portugal, era globalmente.
Visionário.
“1,2 milhões de mortes registadas anualmente nas estradas de todo o mundo” é pouco devia ser o triplo, o planeta Terra ficava agradecido. Na India então…. até a terra passava girar um segundo mais rapido por ano.
Eu notei hoje a confiança de um piloto, que se não desvio ia lixar a carrinha parada a descarregar na via dele e o meu que vinha no sentido contrário, numa zona de 30 com passadeira, mas vinha bem cima disso, mas mesmo assim achou que passava entre mim e a carrinha.
É malta que conduz carros com falta de travões, ou então consomem tanto que tentam travar o mínimo possível.
A taxa de basófia é, de facto, assustadora.
A quantitade de malta com a mentalidade de ‘só acontece aos outros porque eu sei conduzir’ é alarmante.