Como 50.000 postes de luz se tornaram no maior centro de dados de África
Enquanto a SpaceX imagina centros de dados no espaço e a Microsoft já experimentou afundá-los no oceano, uma empresa britânica decidiu pensar de forma mais discreta, e mais próxima do chão.
De nome Conflow Power Group (CPG) e sediada em Warwickshire, a empresa assinou um acordo com o Governo do Estado de Katsina, na Nigéria, para instalar 50.000 postes de iluminação inteligentes movidos a energia solar.
O resultado é o primeiro centro de dados de Inteligência Artificial (IA) distribuído de África.
O que é um iLamp e como funciona?
De nome iLamp, cada poste de iluminação é uma unidade autónoma equipada com um painel solar cilíndrico e uma bateria própria.
No seu interior, um chip NVIDIA de baixo consumo utiliza apenas 15 watts de energia para fazer a inovação acontecer.
Embora isoladamente pareça pouco, os 50.000 postes combinam esforços para gerar 13,75 petaOPS de potência de computação, sem consumir um único watt da rede elétrica pública.
Para referência, um centro de dados tradicional necessita tipicamente de 300 megawatts de energia da rede, milhões de litros de água para arrefecimento e vários anos de construção. Os iLamps dispensam tudo isso, segundo a empresa.
Vigilância, Wi-Fi e receitas para o estado
As capacidades dos iLamps vão muito além da computação distribuída. Cada poste pode integrar câmaras para fiscalização de trânsito, com deteção automática de excesso de velocidade, infrações de estacionamento e não utilização do cinto de segurança.
No horizonte está, também, o reconhecimento facial para identificação de pessoas procuradas ou desaparecidas, embora essa funcionalidade ainda não tenha sido implementada, conforme citado.
Os postes oferecem ainda ligação Wi-Fi pública e conectividade Bluetooth às populações locais.
Do ponto de vista financeiro, o Estado de Katsina ficará com as receitas das coimas de trânsito registadas pelas câmaras, com a CPG a receber uma quota de 20% após três anos.
Por sua vez, os rendimentos provenientes do aluguer da capacidade de computação a empresas de IA serão canalizados para uma obrigação verde destinada a financiar a instalação e manutenção da rede.

Crédito: CPG
Podem os postes substituir os centros de dados tradicionais?
A resposta curta é que não completamente, pois os especialistas reconhecem que os iLamps não são adequados para cargas de trabalho pesadas de IA, uma vez que a distância física entre os postes introduz latência suficiente para tornar certas tarefas inviáveis.
No entanto, para aplicações mais leves, estes postes podem funcionar de forma semelhante a antenas de rede móvel, como pontos de acesso distribuídos que aproximam a computação dos utilizadores finais.
Assim sendo, o acordo com Katsina pode ser apenas o ponto de partida.
Se as negociações em curso com outros sete estados da Nigéria, universidades e instituições chegarem a bom porto, a rede total poderá ultrapassar as 300.000 unidades iLamp, tornando-se a maior rede distribuída de computação de IA em todo o continente africano.

Os postos de iluminação iLamp já estão a ser utilizadas no parque de estacionamento do Hospital de Warwickshire. Crédito: BBC
Uma resposta à crise energética da IA?
Este projeto surge num momento em que a expansão da infraestrutura de IA está a colocar uma pressão crescente sobre os recursos globais.
Os especialistas alertam que o ritmo atual de crescimento poderá agravar significativamente a crise de resíduos eletrónicos que já representa um problema ambiental grave a nível mundial.
A aposta em soluções descentralizadas, alimentadas por energias renováveis e integradas no espaço urbano existente, pode ser uma das formas de crescer de forma mais sustentável.
Surpreendentemente, a Nigéria está na linha da frente dessa experiência.





















os postes não, mas as antenas 5G sim, já se faz em muitos países, incluindo Portugal
Não é mau pensado não