Arábia Saudita aposta nos elétricos. Até os “reis” do petróleo querem mudar
Durante anos, ouvimos que os carros elétricos eram uma moda, que não era o futuro ou até um capricho político. Entretanto, a Arábia Saudita decidiu investir na sua própria marca de automóveis elétricos. A ironia vem de depósito cheio: até quem fez fortuna com o petróleo quer vender carros que dispensam gasolina.

A protagonista chama-se Ceer e nasceu de uma parceria entre o fundo soberano saudita, o PIF, e a tecnológica Foxconn. O projeto foi anunciado em 2022, incluindo o licenciamento de tecnologia de componentes da BMW. Ou seja, a ambição saudita tem parceiros industriais com experiência para ajudar a concretizá-la.
Para os adeptos do eterno “os elétricos não têm futuro”, há aqui um detalhe particularmente incómodo: quem ganha dinheiro a vender petróleo também está a preparar-se para ganhar dinheiro com a eletrificação.






O dinheiro do petróleo já olha para a tomada
No dia 21 de setembro de 2026, a Ceer apresentou os seus primeiros modelos EXOBOT, uma berlina e um SUV elétricos. Segundo o que é revelado, estes serão produzidos na Arábia Saudita e fazem parte de uma gama que a empresa pretende alargar ao longo dos próximos cinco anos.
A aposta integra a estratégia saudita de diversificação económica e desenvolvimento de uma indústria automóvel nacional. O objetivo passa por criar capacidade industrial, atrair investimento e gerar atividade para lá do petróleo.
A leitura é simples: o petróleo continua a pagar as contas, mas os sauditas querem outras fontes de rendimento para o futuro. E os automóveis elétricos estão nessa lista.
Talvez a discussão ainda vá no “isso nunca vai pegar”. Nos gabinetes de investimento sauditas, já se discute como produzir e vender.

Apresentar carros é fácil. Fazer uma marca resultar é outra conversa
Convém, no entanto, manter os pneus no asfalto. Ter financiamento e parceiros conhecidos não garante sucesso numa indústria tão competitiva.
Em declarações à Semafor, o presidente executivo da Ceer apontou o início da produção para o começo de 2027 e as primeiras entregas para março. São previsões: a marca ainda terá de demonstrar que consegue fabricar, entregar e conquistar clientes.
Depois chegam os desafios que nenhum anúncio resolve sozinho: qualidade, preços, assistência e confiança dos compradores. Uma apresentação impressionante pode despertar curiosidade. Construir uma marca exige muito mais.

Gostar de gasolina não obriga a ignorar o mercado
Um motor de combustão pode continuar a despertar emoções. O som, a resposta e a experiência de condução fazem parte da paixão automóvel de muita gente.
O salto lógico acontece quando essa preferência pessoal se transforma numa certeza sobre o futuro de toda a indústria.
Pode gostar-se de um V8 e reconhecer que há negócio nos elétricos. Os sauditas parecem perfeitamente capazes de conciliar os dois mundos.
E fica a provocação: se os elétricos são uma moda passageira, porque é que os “reis” do petróleo querem um lugar à mesa? Talvez o cheiro a gasolina seja apaixonante. Mas, quando chega a hora de investir, o cheiro a dinheiro também conta.


















