Estivemos aos comandos do Leapmotor B10, um SUV de origem chinesa que pretende formatar o mercado nacional neste segmento. A condução é segura, tecnologicamente superior e, claro está, há a questão do preço. Mas não vamos já revelar tudo. Primeiro, fique com as nossas impressões sobre este modelo.

O Leapmotor B10 não chega ao mercado europeu com a delicadeza de quem pede licença. Entra de frente. Tem 4,52 metros de comprimento, 218 cv, tração traseira, até 434 quilómetros de autonomia WLTP e uma lista de equipamento capaz de deixar alguns concorrentes europeus a fazer contas à vida.
E, no caso português, parte de um preço que ajuda a explicar porque é que a Leapmotor está a levar este SUV muito a sério. Mas há outra questão mais interessante. Será que o B10 é simplesmente barato ou é, de facto, um bom automóvel? Sim… é aqui que começa o verdadeiro ensaio.


Um SUV de 218 cv
O Leapmotor B10 foi desenvolvido sobre a arquitetura LEAP 3.5 e é, segundo a marca, o primeiro modelo da série B pensado desde o início para os mercados internacionais. A relação com a Stellantis também não é apenas uma questão de distribuição. O chassis recebeu afinação específica para a Europa, incluindo trabalho realizado no centro de desenvolvimento de Balocco, em Itália.
Debaixo do capot, embora não exista propriamente um motor ali, está um sistema elétrico com 160 kW, equivalentes a 218 cv, e 240 Nm de binário. A potência chega às rodas traseiras.

A ficha técnica promete 0-100 km/h em 8 segundos e uma velocidade máxima de 170 km/h. Não estamos perante um daqueles elétricos que parecem querer arrancar o asfalto sempre que se toca no acelerador. E ainda bem. O B10 é mais civilizado do que isso.
A resposta do motor é imediata, naturalmente, mas suficientemente progressiva para que a condução diária não se transforme numa sucessão de arrancadas desnecessariamente bruscas. Em cidade, os 218 cv chegam e sobram. Numa ultrapassagem, também não deixam propriamente saudades de potência.
A filosofia é outra. O B10 prefere transportar os ocupantes com serenidade a tentar convencê-los de que são pilotos de competição. E percebe-se isso logo quando a estrada começa a apertar.

Confortável
O B10 tem suspensão dianteira McPherson e um sistema traseiro multibraços, com uma distribuição de peso anunciada de 50:50. É uma solução tecnicamente interessante para um SUV elétrico deste preço.
Na prática, a afinação privilegia claramente o conforto.
Em cidade, é onde o Leapmotor mais convence. Buracos, tampas de saneamento, lombas e aquelas pequenas crateras que as nossas estradas insistem em cultivar são absorvidos com relativa facilidade. O B10 não se torna particularmente seco nem transmite constantemente ao habitáculo aquilo que acontece debaixo das rodas.
Quando o ritmo aumenta, a conversa muda.






Vários ensaios realizados na Europa identificaram alguma inclinação da carroçaria em curva e movimentos verticais mais pronunciados quando a estrada se torna ondulada. A direção, sobretudo nos modos mais confortáveis, também pode parecer excessivamente leve e pouco comunicativa.
Não é um problema grave. É, antes, uma questão de caráter.
O B10 não nasceu para atacar uma estrada de montanha. Nasceu para levar uma família de A para B sem transformar cada viagem numa sessão de fisioterapia. E, nesse papel, a suspensão macia faz sentido.

A direção ganha algum peso quando se seleciona o modo mais desportivo, embora isso não transforme o B10 num SUV particularmente envolvente. Há aderência e segurança suficientes, mas falta aquela ligação entre mãos, rodas e asfalto que alguns modelos europeus já conseguem oferecer.
É um pouco como conversar com alguém que responde sempre corretamente, mas nunca conta uma boa história.
Três modos de condução
O Leapmotor B10 permite escolher entre os modos Comfort, Standard e Sport, que alteram sobretudo a resposta do acelerador e o peso da direção. A travagem regenerativa também pode ser ajustada.
A questão é que quase tudo passa pelo sistema multimédia. E aqui começa uma das pequenas irritações do B10.

Num automóvel moderno, faz sentido concentrar funções num ecrã. Num automóvel que se conduz, contudo, algumas dessas funções continuam a merecer um botão físico. Alterar determinadas definições enquanto se conduz não deveria exigir uma pequena expedição arqueológica pelos menus do sistema.
Os três níveis de regeneração não proporcionam, por outro lado, uma experiência de condução verdadeiramente one-pedal. Mesmo na configuração mais forte, é necessário recorrer ao pedal do travão para parar completamente.
Não é dramático. É apenas menos intuitivo do que alguns rivais.

434 km de autonomia
É possível escolher entre duas baterias. A versão Pro utiliza um pack de 56,2 kWh e anuncia 361 km de autonomia WLTP. A Pro Max sobe para 67,1 kWh e chega aos 434 km. Ambas utilizam carregamento AC até 11 kW, enquanto a versão de maior capacidade suporta carregamento DC até 168 kW.
Segundo os dados oficiais, uma carga de 30 a 80% pode ser feita em cerca de 20 minutos.

Para quem pretende utilizar o B10 como automóvel principal, a bateria de 67,1 kWh é claramente a opção mais interessante.
Os 434 km anunciados não devem, naturalmente, ser confundidos com uma promessa de 434 km em autoestrada, no inverno, com chuva e aquecimento ligado. A autonomia WLTP é uma referência de homologação, não uma garantia sobre a vida real.
Ainda assim, esta é uma autonomia realista para a utilização quotidiana, destacando-se a combinação entre autonomia e capacidade de carregamento como um dos pontos fortes do modelo.
Ah, e o B10 suporta V2L, permitindo utilizar a bateria para alimentar equipamentos externos.

A carta da tecnologia
É no habitáculo que a Leapmotor tenta criar a sensação de que o preço não conta toda a história.
O tablier é dominado por um ecrã central de 14,6 polegadas, acompanhado por um painel de instrumentos de 8,8 polegadas. O sistema utiliza o LEAP OS 4.0 Plus, dispõe de conectividade, navegação online e atualizações remotas, além de integração com Apple CarPlay e Android Auto.


A versão Design acrescenta bancos em couro ECO, iluminação ambiente e bancos dianteiros aquecidos, ventilados e com regulação elétrica. O volante também pode ser aquecido e a porta da bagageira tem abertura elétrica.
Tudo isto contribui para uma sensação de equipamento bastante acima daquilo que o preço poderia sugerir.
E há espaço. Com uma distância entre eixos de 2,735 metros, o B10 consegue proporcionar um habitáculo generoso, sobretudo atrás. A bagageira anuncia 430 litros, valor que não é extraordinário dentro do segmento, mas permite uma utilização familiar sem grandes dramas.


A posição de condução é elevada, a visibilidade é razoável e a câmara de 360 graus ajuda bastante nas manobras. Para um SUV desta dimensão, é uma combinação que se agradece diariamente.
Sistemas que falam
Um automóvel elétrico tende a oferecer uma experiência acústica muito tranquila a baixa velocidade e o B10 não foge à regra.
O motor elétrico é suave e silencioso, enquanto a ausência de vibrações mecânicas contribui para um ambiente agradável no habitáculo. Em autoestrada, contudo, o ruído aerodinâmico torna-se mais perceptível, sobretudo em torno dos espelhos e da zona dianteira. Mas… não é de todo um incómodo!

Mas o elemento mais discutível não é o vento. São os sistemas de assistência à condução. O B10 inclui um pacote ADAS bastante completo, com 17 funcionalidades, câmaras de 360 graus e diversos sistemas de apoio ao condutor.
A quantidade é impressionante. A afinação é que ainda precisa de alguma maturidade.
Ainda há intervenções demasiado frequentes do sistema de manutenção na faixa de rodagem, avisos sonoros excessivos e alguma tendência para o automóvel tentar corrigir situações que o condutor não considera problemáticas.
É daqueles casos em que o carro quer ajudar tanto que, por vezes, quase apetece dizer-lhe para respirar fundo.


Preço de combate, mas não só…
É provavelmente esta a parte mais interessante do Leapmotor B10.
A marca não está a tentar competir apenas pelo preço. Está a tentar mostrar que consegue oferecer um produto tecnologicamente sofisticado, espaçoso e confortável sem entrar nos valores tradicionalmente associados a muitos SUV elétricos europeus.
Em Portugal, a gama arrancou nos 29.285 euros de preço de venda recomendado, com três combinações de versão e bateria:
- Life Pro de 56,2 kWh por 29.285 euros;
- Life Pro Max de 67,1 kWh por 31.285 euros;
- Design Pro Max de 67,1 kWh por 32.785 euros.
É precisamente aqui que o B10 ganha interesse. Deixando claramente a porta aberta para os modelos que o mercado está já a receber como novidade Leapmotor!

Por pouco mais de 30 mil euros, dependendo da configuração, passa a ser possível ter um SUV elétrico de 218 cv, tração traseira, bateria de 67,1 kWh, teto panorâmico, câmara 360 graus, carregamento rápido, sistemas ADAS e uma dotação tecnológica muito generosa.
Não é perfeito. Longe disso. Mas é confortável, silencioso, espaçoso, suficientemente rápido e recheado de tecnologia. Não tenta ser o SUV elétrico mais emocionante do mercado. Quer ser aquele que faz quase tudo bem, custa menos do que seria expectável e não exige ao proprietário uma pós-graduação em mobilidade elétrica.
E isso, convenhamos, já é uma proposta bastante séria.


















