Amazon promete entregas em 30 minutos, mas o céu virou uma “autoestrada aérea”
Os drones de entrega da Amazon prometem rapidez e conveniência, mas em Richardson, no Texas, os residentes descrevem uma realidade de ruído constante e perda de privacidade, bem como um céu que, segundo alguns, se transformou numa autêntica “autoestrada aérea”.

O que está a acontecer
Segundo avança o GeekWire, que cita reportagens do The New York Times e da NBC, através do programa TODAY, os moradores de um subúrbio de Dallas próximo de um dos centros de distribuição da Amazon estão a suportar o peso da expansão acelerada do Prime Air.
Um dos residentes afetados, de nome Scott Bratcher, descreveu a situação como “constante: é como uma colmeia mesmo por cima da nossa casa”, comparando o seu quintal a uma verdadeira autoestrada de drones. Outra moradora, Stephanie Puri, contou ter contabilizado 52 passagens de drones sobre a sua casa num dia que classificou como “calmo”, acrescentando que o ruído penetra em casa mesmo com a televisão ligada.
O programa Prime Air recorre a hexacópteros autónomos, entre os quais o modelo mais recente, o MK30, capaz de transportar encomendas até cerca de 2,3 kg, voando diretamente das instalações da Amazon até zonas residenciais em 30 minutos ou menos.
A partir de centros como o de Richardson, a empresa está a alargar rapidamente as operações, com o objetivo de levar as entregas por drone a quase 500 cidades e localidades norte-americanas até ao final de 2026.
Amazon Drone Delivery 🤯
— Wall Street Mav (@WallStreetMav) April 26, 2024
Have you had a package delivered by drone yet from Amazon? pic.twitter.com/Oe9d0vg9pb
Amazon desvaloriza reclamações perante um vazio regulatório
A Amazon defende o programa como um sucesso, sublinhando que a reação dos clientes tem sido globalmente positiva. Segundo declarações de um porta-voz da empresa, também citadas pelos órgãos de comunicação, menos de 1% das questões colocadas sobre o Prime Air este ano estão relacionadas com ruído, sendo o som ao nível do solo descrito pela empresa como mínimo, breve e comparável ao de uma ventoinha de janela ou de um carro a passar.
Neste cenário, um dos aspetos mais críticos da disputa prende-se com a ausência de poder das autoridades locais sobre o espaço aéreo acima das suas próprias comunidades. Como a Federal Aviation Administration (FAA) detém jurisdição exclusiva sobre o espaço aéreo nacional, as câmaras municipais não têm autoridade para restringir rotas de voo, impor limites de ruído ou exigir altitudes mais elevadas.

Este braço de ferro em Richardson espelha uma tendência mais ampla no norte do Texas, que se tornou um dos principais polos de testes de entrega por drone nos Estados Unidos, impulsionado por condições meteorológicas favoráveis, pelo crescimento urbano e por incentivos fiscais estaduais.
De facto, além da Amazon, também o Walmart, o Wing (da Alphabet) e o DoorDash disputam terreno na região metropolitana de Dallas-Fort Worth, naquilo que o GeekWire descreve como uma verdadeira “corrida armamentista” de drones.
Moradores organizam-se contra os drones
Perante a falta de resposta institucional, um grupo de vizinhos, autodenominado drone warriors, começou a mobilizar-se, recorrendo a aplicações de rastreio de voos para monitorizar o tráfego aéreo sobre as suas casas e pressionando as autoridades municipais a impor regras mais rígidas.
Precisam de investigar muito mais, têm de responsabilizar a Amazon, precisamos de regras. E, se não as cumprirem, que lhes tirem os brinquedos e os desliguem.
Resumiu Scott Bratcher no programa TODAY.
O caso de Richardson está a servir de alerta para outras comunidades norte-americanas que se preparam para receber este tipo de serviço, expondo o desfasamento entre o ritmo de expansão tecnológica das empresas e a capacidade dos reguladores em acompanhar o impacto real que estas soluções têm na vida das pessoas.


















