Videojogos e politica! Será que fazem match?
Como já por várias ocasiões pude referir, sou da forte opinião de que os videojogos podem ser ferramentas importantes em muitos aspetos da vida dos individuos e da própria sociedade. Mas... será que podem ter alguma relevância na politica?
Desde os anos 70/80 do século passado que os videojogos são encarados sobretudo como uma forma de entretenimento destinada principalmente para os mais jovens. Mas... será que é mesmo assim?
Tal como tenho vindo a realçar em vários artigos (ver aqui, por exemplo) ao longo do tempo, sou da forte opinião de que os videojogos apresentam de forma crescente, aspetos francamente positivos no que respeita a preparar o jogador ou a fornecer-lhe competências para a vida "cá fora".
Mas... será que isso também se pode aplicar aos políticos?
Para responder a isso existem várias facetas que terão de ser analisadas. A, cada vez mais rápida, evolução da indústria de videojogos e o crescimento exponencial do número de jogadores em todo o mundo, acabaram por transformá-los num dos mais influentes meios de comunicação e expressão cultural da atualidade.
Hoje, creio não ser totalmente descabido afirmar que os videojogos podem desempenhar um papel bastante importante na política, quer na formação cívica dos cidadãos, quer na forma como os governos, os partidos e a sociedade comunicam entre si.
Ao contrário do que acontece com os meios tradicionais, os videojogos permitem aos utilizadores participar ativamente em cenários que simulam decisões políticas, económicas e sociais. Em vez de apenas observar acontecimentos, os jogadores são frequentemente desafiados a tomar decisões que afetam comunidades inteiras, gerindo recursos, resolvendo conflitos e enfrentando as consequências das suas escolhas.
Esta capacidade de colocar o cidadão no centro da ação pode funcionar como uma ferramenta eficaz para desenvolver o pensamento crítico e uma melhor compreensão do funcionamento das instituições democráticas. Jogos de estratégia, de construção/gestão de cidades ou de gestão de nações permitem experimentar, ainda que de forma simplificada, os desafios que governantes e responsáveis políticos enfrentam diariamente. Exemplos como SimCity, Cities: Skylines, Age of Empires, Frostpunk,... são bons exemplos disso mesmo.
Mas arrisco-me a afirmar que o impacto dos videojogos vai um pouco além da simples aprendizagem. Atualmente, as plataformas de jogo online reúnem milhões de utilizadores de diferentes nações, criando espaços de debate onde surgem conversas sobre direitos humanos, igualdade, religião, liberdade de expressão, alterações climáticas ou conflitos internacionais. Isto, como é natural, acaba por se fundir em ambientes digitais que se tornaram em verdadeiras comunidades globais, onde diferentes perspectivas culturais se cruzam e onde muitos jovens têm o primeiro contacto com debates de interesse público e politico.
Mas e arrisco-me a perguntar: "Que videojogos poderiam ajudar os políticos a desenvolver competências?"
É claro que, embora nenhum jogo substitua a experiência adquirida na governação ou na administração pública, alguns tipos de videojogos podem perfeitamente contribuir para o desenvolvimento de algumas competências úteis na atividade política.
Por exemplo, jogos de estratégia em tempo real (RTS) exigem planeamento, definição de prioridades e capacidade para reagir rapidamente a cenários que se apresentam em constante mudança.
Por outro lado, os simuladores de gestão de cidades ou países colocam os jogadores perante desafios relacionados com a distribuição de recursos, o equilíbrio entre investimento público e sustentabilidade financeira, bem como a necessidade de conciliar interesses frequentemente contraditórios.
Por sua vez, os títulos de negociação e diplomacia (Crusader Kings, Europa Universalis, por exemplo), incentivam a construção de alianças, a resolução de conflitos e a procura de compromissos, capacidades fundamentais para qualquer responsável político.
Podemos ir um pouco mais além e existe videojogos narrativos (This War of Mine ou Life is Strange) que abordam dilemas éticos e sociais, obrigando os jogadores a refletir sobre o impacto das suas decisões em diferentes grupos da população.
Mais do que procurar "ensinar política", estes jogos funcionam como laboratórios virtuais onde é possível experimentar estratégias, avaliar consequências e compreender que muitas decisões públicas envolvem escolhas difíceis, sem soluções perfeitas. Podem ser utilizados, de forma sensata, como complemento à formação e à experiência prática, podendo estimular competências como o pensamento estratégico, a liderança, a comunicação, a gestão de crises e a tomada de decisões baseada na análise de diferentes cenários.
Naturalmente, o valor destes videojogos depende da forma como são utilizados. A reflexão crítica sobre as mecânicas do jogo e a comparação com situações reais são essenciais para transformar a experiência lúdica numa oportunidade de aprendizagem. Nesse sentido, os videojogos podem constituir uma ferramenta inovadora para desenvolver capacidades que também são relevantes no exercício da liderança política.
Existe ainda uma outra faceta dos videojogos que poderemos ter em conta: a comunicação política.
Com efeito, a comunicação politica, começou também a ser adaptada a esta nova realidade. Nos últimos anos, foram vários os líderes e partidos políticos que recorreram a plataformas ligadas ao universo dos videojogos para promover campanhas, organizar eventos virtuais e aproximar-se de um eleitorado mais jovem. O objetivo é simples: comunicar através dos espaços digitais onde as novas gerações passam grande parte do seu tempo.
Em outubro de 2020, Alexandria Ocasio-Cortez (politica norte-americana do Partido Democrata) realizou uma transmissão em direto no Among Us através da plataforma Twitch, juntamente com vários criadores de conteúdos. O objetivo era incentivar os jovens a registarem-se para votar nas eleições presidenciais norte-americanas. A transmissão atraiu centenas de milhares de espectadores em simultâneo e tornou-se um dos maiores eventos políticos na plataforma.
Por outro lado, durante a campanha presidencial de 2020, a equipa de Joe Biden disponibilizou cartazes e materiais de campanha que os jogadores podiam colocar nas suas ilhas em Animal Crossing: New Horizons. A iniciativa procurava alcançar um público jovem num ambiente digital muito popular durante a pandemia.
Bem cá mais perto, em França, Emmanuel Macron e membros do seu partido participaram em sessões de perguntas e respostas na Twitch com influenciadores digitais. Embora o foco não fosse jogar, a escolha da plataforma refletiu uma estratégia para comunicar com comunidades ligadas ao universo dos videojogos e do streaming.
Tratam-se de exemplos em como as campanhas políticas procuram cada vez mais, chegar aos cidadãos onde estes passam a maior parte do seu tempo. Se nos tempos que correm, milhões de jovens utilizam plataformas como Twitch, Discord e videojogos com fortes componentes sociais diariamente, então fará sentido, usá-las como meios de passar a mensagem, certo?. Por outro lado, em vez de recorrer apenas à televisão ou aos comícios tradicionais, esta opção por conversar com os eleitores em ambientes digitais mais informais, torna possível um diálogo onde se possa responder a perguntas em tempo real e criar uma comunicação mais direta.
No entanto, esta influência não está isenta de riscos. Tal como acontece nas redes sociais, os videojogos podem ser utilizados para disseminar desinformação, propaganda ou discursos extremistas. Algumas comunidades digitais enfrentam problemas relacionados com discurso de ódio, assédio e manipulação da informação, tornando essencial reforçar a literacia digital dos utilizadores e promover uma utilização crítica destes espaços.
Desta forma, os videojogos não devem substituir o ensino da cidadania nem o debate político tradicional. Representam, isso sim, uma oportunidade única para aproximar os cidadãos da participação democrática, sobretudo entre os mais jovens, que cresceram num ambiente profundamente digital.
À medida que a tecnologia continua a evoluir e que os mundos virtuais ganham importância na vida quotidiana, a ligação entre videojogos e política tende a tornar-se cada vez mais relevante. O desafio passará por aproveitar o potencial educativo e participativo destes ambientes digitais, garantindo simultaneamente que permanecem espaços seguros, inclusivos e promotores de uma cidadania informada.
Os videojogos já não são meramente uma indústria do entretenimento. São um fenómeno cultural com impacto social, económico e ... político! São capazes de influenciar a forma como os cidadãos aprendem, comunicam e participam na vida democrática. Num mundo cada vez mais digital, compreender esta realidade será fundamental para perceber o futuro da política e da participação cívica.





















Faltou o jogo Victoria 3.