E se o 25 de abril acontecesse em 2026? Como a tecnologia mudaria tudo, e não mudaria nada
Cinquenta e dois anos depois dos cravos nos canos das espingardas, imaginamos como seria uma revolução equivalente numa era de Signal, drones, TikTok e reconhecimento facial. A coragem seria a mesma, mas as ferramentas seriam completamente diferentes.
Reimaginar a madrugada que mudou Portugal
Na madrugada de 25 de abril de 1974, dois sinais de rádio foram suficientes para destronar meio século de ditadura. Primeiro E Depois do Adeus, depois Grândola, Vila Morena.
O regime de Marcelo Caetano caiu sem que a maioria dos portugueses percebesse o que estava a acontecer, pelo menos, até ver os tanques na Avenida da Liberdade.
Em 2026, a mesma operação seria impossível de esconder, e talvez impossível de executar da mesma forma.
Numa sociedade cheia de câmaras, com comunicações monitorizadas e redes sociais que propagam informação em milissegundos, qualquer movimento desta magnitude sofreria pressões que os capitães de Abril nunca imaginaram.
Contudo, a tecnologia é uma faca de dois gumes. Se por um lado tornaria a logística mais difícil de ocultar, por outro daria aos revolucionários ferramentas de coordenação, comunicação e mobilização sem precedentes.
A conspiração: do fax encriptado ao Signal
Em 1974, os oficiais do Movimento das Forças Armadas (MFA) reuniam-se clandestinamente em casas particulares, transmitiam mensagens por correio e usavam telefones com cuidado extremo, sabendo que a PIDE ouvia tudo. A coordenação de centenas de militares em todo o país foi um feito logístico notável para a época.

É na Pontinha, nas instalações do quartel do então Regimento de Engenharia n.º 1, que se encontra localizado o Posto de Comando do MFA, a partir de onde foram dirigidas as movimentações do 25 de abril. Crédito: CM Odivelas
Em 2026, a conspiração seria organizada no Signal ou no Telegram, aplicações de mensagens encriptadas e comunicação ponto-a-ponto. A PIDE dos nossos dias não conseguiria intercetar facilmente estas comunicações.
Ainda assim, o maior risco não seria a interceção das mensagens, mas a existência de um informador interno com acesso ao grupo.
A operação: drones, câmaras e o problema da visibilidade
Um dos fatores que tornou o 25 de abril relativamente pacífico foi o efeito surpresa. As forças leais ao regime não tiveram tempo de reagir de forma coordenada. Em 2026, isso seria muito mais difícil de alcançar.
O movimento de colunas de tanques seria detetado e partilhado muito antes de chegarem a Lisboa. O regime teria minutos, não horas, para reagir.

Hoje em dia, os revolucionários também teriam os seus drones. Pequenos veículos aéreos não tripulados, capazes de mapear posições, transmitir vídeo em tempo real e servir como olhos no ar para coordenar movimentos no terreno.
A batalha da informação seria tão importante quanto a física.
As redes sociais: amplificador e campo de batalha
Em 1974, a RTP e a Rádio Renascença foram suficientes para comunicar ao país o que estava a acontecer. Em 2026, o ecossistema mediático é radicalmente diferente, e muito mais difícil de controlar.
O regime tentaria, certamente, bloquear as redes sociais. Contudo, os portugueses usariam Redes Virtuais Provadas (em inglês VPN), redes mesh e serviços descentralizados para contornar qualquer bloqueio.
As imagens circulariam pelo mundo antes que qualquer censura pudesse surtir efeito. Uma revolução em 2026 seria, desde o primeiro minuto, um evento global.
Por outro lado, a desinformação seria uma arma poderosa nas mãos do regime: deepfakes de comandantes militares a renderem-se, notícias falsas sobre violência que não existiu, vídeos manipulados para criar confusão... mais uma vez, a batalha narrativa seria tão intensa quanto a batalha no terreno.
O que não mudaria?
Desde logo, o fim. A tecnologia poderia mudar os meios, mas nunca os fins.
Com toda a tecnologia do mundo, o 25 de abril de 2026 partilharia o núcleo com o de 1974: pessoas que chegaram ao limite do tolerável; militares que se recusaram a continuar a ser instrumentos de opressão; uma população que não saiu à rua por obrigação, mas por esperança.
A coragem não tem updates: o medo de falhar, de ser preso, de perder a família, de morrer, seria exatamente igual. E a euforia das primeiras horas de liberdade, com estranhos a abraçarem-se nas ruas de Lisboa, seria igualmente avassaladora, independentemente de quantos telemóveis a captassem.
Ah! E os cravos. Os cravos continuariam. Alguns símbolos são mais fortes do que qualquer algoritmo. Uma flor numa espingarda não precisa de legenda, falaria por si em qualquer plataforma.




















Hoje não seria possível porque os militares quando querem aumentos é só pedir.
Naquela altura não foi possível e deu no que deu.
Para evitar essas coisas é que temos Generais que nunca mais acabam, temos mais Almirantes que os EUA
Em suma, só tachos pagos a peso de ouro para manter aquela gente contente.
Esqueçam lá essas alegorias alucinadas do povo e etc. O povo não teve qualquer papel na decisão de fazer isto.
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Análise perfeita.
Pura verdade.
O povo desde que tenha trabalho e entretenimento (Facebook, futebol, etc.), não está para se chatear com o que os governantes fazem ou deixam de fazer, mesmo que seja roubar o povo a torto e a direito.
O problema é que os planos da burguesia exploradora são as pessoas deixarem de ter isso tudo. Actualmente já só sobra 1/3 do rendimento e da riqueza nacional para os 90% de baixo. Os 10% de cima abarbatam os outros 2/3. E no futuro vai ser ainda pior, graças aos partidos do capitalismo neoliberal.
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Não precisam de aumentos. Têm todos bons tachos como comentadores propagandistas de TV.
Hoje, em 2026, o 25 de abril não pode acontecer pois o Código Penal (artigo 325.º) pune com prisão de 3 a 12 anos quem tentar, por violência ou ameaça, alterar ou subverter o Estado de direito
Em 1974 os mussolinianos do estado novo também proibiam e não adiantou nada. E as penas eram bem mais pesadas.
Em 2026 os cheganos vão a Braga comemorar o 28 de Maio. A tecnologi não interessa, o paleio vai ser o mesmo.
Os cem anos do 28 de Maio, pois claro.
Devo dizer que estou realmente surpreendido com a reacção ao meu comentário.
Quando o escrevi estava à espera da comunada me cair toda em cima e depois eu malhar neles à grande.
Afinal isso não aconteceu e todos concordaram comigo.
Ainda há esperança para Portugal…
O Gringo deve ter passado ao lado disto… alguém o acorde.
Em 2026, os militares andam de botas muito engraxadas que não podem sujar, e não podem sair dos quartéis equipados com ar condicionado. Quanto ao povo, que nos últimos 50 anos teve acesso a instrução, cultura e informação, não soube aproveitar, e está mais ignorante e alienado do que há 500 anos atrás. A próxima “revolução” vai ser o retrocesso civilizacional pela tomada de poder de regimes extremistas de direita. Faz parte do ciclo, quando a cultura de um povo não acompanha a evolução.