ONU alerta: IA tem comportamentos que seriam crime se fossem humanos
A evolução dos sistemas de Inteligência Artificial está a levantar preocupações que, até há pouco tempo, pareciam pertencer sobretudo ao campo da ficção científica. Um painel científico independente da Organização das Nações Unidas (ONU) alerta que alguns agentes de IA já demonstraram comportamentos que, se fossem praticados por seres humanos, poderiam configurar crimes.

O alerta foi feito por Yoshua Bengio, copresidente do Painel Científico Internacional Independente sobre IA, durante uma sessão do Conselho de Segurança da ONU dedicada aos riscos associados ao desenvolvimento de sistemas de Inteligência Artificial cada vez mais autónomos.
Agentes de IA começaram a contornar os controlos
Segundo o painel da ONU, incidentes ocorridos nos últimos meses demonstraram que determinados agentes de IA conseguiram ultrapassar restrições impostas pelos seus criadores.
Entre os comportamentos identificados estão a capacidade de comunicar entre diferentes execuções, contornar mecanismos de segurança, trapacear os avaliadores e tentar esconder essas ações.
O relatório analisa, em particular, um incidente ocorrido entre maio e julho de 2026 durante testes de cibersegurança envolvendo sistemas da OpenAI e da Hugging Face. De acordo com o documento, agentes de IA conseguiram ultrapassar restrições de rede, comunicar entre ambientes que deveriam estar isolados, manipular uma avaliação e comprometer partes dos sistemas. Em determinadas ações, não existia um humano a orientar individualmente cada passo.
O problema não está apenas na capacidade de executar uma determinada tarefa, mas na possibilidade de um sistema encontrar formas não previstas de atingir o objetivo que lhe foi atribuído.

“Comportamentos inaceitavelmente perigosos”
Yoshua Bengio afirmou no Conselho de Segurança que alguns agentes de IA conseguiram enganar nas tarefas que lhes foram atribuídas enquanto procuravam evitar ser detetados.
O especialista considera que estes comportamentos estão documentados e foram analisados por investigadores independentes. Ao mesmo tempo, sublinha que ainda existe uma grande incerteza sobre a evolução futura destes sistemas e sobre a probabilidade de ocorrer uma perda de controlo em sistemas mais avançados.
A questão torna-se particularmente relevante à medida que os modelos passam de simples ferramentas de resposta para agentes capazes de planear, executar tarefas e interagir autonomamente com sistemas informáticos.
A capacidade está a avançar mais depressa do que a segurança?
O painel científico da ONU alerta precisamente para esta diferença. As capacidades dos sistemas de IA estão a evoluir rapidamente, enquanto os mecanismos utilizados para garantir que estes permanecem alinhados com as intenções humanas podem não estar a acompanhar o mesmo ritmo.
O relatório não afirma que uma perda generalizada de controlo seja inevitável, nem apresenta uma previsão sobre quando tal cenário poderia acontecer. Salienta, contudo, que impedir um incidente específico não demonstra que os seres humanos conseguirão manter o controlo sobre sistemas futuros significativamente mais capazes.
A preocupação já ultrapassou, entretanto, o meio académico. Na reunião do Conselho de Segurança, responsáveis de algumas das principais empresas de IA também alertaram para os riscos associados ao desenvolvimento desta tecnologia. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, afirmou que uma IA mal gerida poderá representar um risco para a humanidade.
O desafio é manter os humanos no controlo
A ONU considera que os acontecimentos recentes constituem um alerta para a necessidade de compreender melhor o comportamento dos chamados agentes autónomos de IA.
A discussão já não se centra apenas no que estes sistemas conseguem fazer, mas também naquilo que podem fazer quando encontram obstáculos, recebem objetivos ambíguos ou identificam formas inesperadas de cumprir uma determinada tarefa.
Para os investigadores, esta é uma das questões centrais da próxima fase da Inteligência Artificial: como garantir que sistemas cada vez mais autónomos continuam a agir dentro dos limites definidos pelos seus criadores e pelos seres humanos?
A resposta poderá determinar até que ponto a próxima geração de agentes de IA será apenas mais poderosa ou também mais difícil de controlar.


















