Nunca foi tão fácil nem tão barato filmar alguém à socapa. Entenda o problema!
Os óculos inteligentes deixaram de ser um brinquedo caro. Na Austrália, um modelo económico da Kmart esgotou em poucos dias, e reacendeu um debate que já vinha de trás: até que ponto estamos preparados para termos câmaras discretas espalhadas por todo o lado?
A cadeia australiana Kmart lançou os Anko AI Camera Glasses, uns óculos inteligentes vendidos a apenas 89 dólares australianos (cerca de 50 euros).
O preço é uma fração do que a Meta cobra pelos seus Ray-Ban Meta, mas as funcionalidades são surpreendentemente semelhantes: captação de fotos, gravação de vídeo em HD, assistente de Inteligência Artificial (IA), reprodução de música e chamadas mãos-livres.
Com os óculos esgotados em lojas por todo o país, o interesse dos consumidores por wearables acessíveis mostra-se real. Ao mesmo tempo, o preço baixo recordou a indústria de um problema que está por resolver.
O software é conhecido, os riscos também
Ao contrário dos Ray-Ban Meta, os óculos da Kmart correm sobre a plataforma HeyCyan, já utilizada em vários óculos inteligentes económicos vendidos em marketplaces online.
Segundo relatos de utilizadores, citados pelo Digital Trends, o desempenho é mais lento do que o da Meta, mas as capacidades principais mantêm-se equivalentes, o que preocupa os especialistas em privacidade.
O problema não é a existência de câmaras em óculos, per si, mas o facto de a tecnologia se tornar cada vez mais discreta, dificultando que quem está por perto saiba que está a ser fotografado ou filmado.
Estes dispositivos incluem, teoricamente, um LED que indica quando há gravação em curso. No entanto, como já se discute há anos, esse indicador é fácil de ignorar ou de tapar.
Segundo Tom Sulston, responsável de políticas na organização Digital Rights Watch, os óculos com câmara são um “pesadelo de privacidade”, sublinhando que a legislação não tem acompanhado a evolução destes wearables.
O responsável referiu ainda casos de criadores de conteúdos que terão usado dispositivos semelhantes para assediar pessoas em espaços públicos, levantando questões sérias sobre consentimento e uso responsável.
A Meta abriu a porta e estão todos a entrar
Importa relembrar que este debate não nasceu com a Kmart. A Meta já vendeu mais de sete milhões de unidades dos seus óculos Ray-Ban, transformando o que era um nicho num produto de consumo em crescimento, ajudada por campanhas de marketing com celebridades e atualizações constantes de software.
A pressão pública também já obrigou a Meta a agir, com a empresa a introduzir alterações que impedem a gravação quando o LED de privacidade é tapado, e a remover vídeos de utilizadores que alegadamente usavam os óculos para assediar estranhos.
Algumas entidades chegaram mesmo a proibir o uso destes dispositivos nas suas instalações, por motivos de segurança e privacidade.
Já a Kmart limita-se a dizer que os seus óculos pertencem a uma categoria de tecnologia cada vez mais comum, e que espera que os clientes os usem “de forma responsável e em conformidade com a lei local”.
Nem quem usa está confortável
Curiosamente, a reação negativa não afeta apenas quem pode ser filmado sem saber, havendo também utilizadores dos próprios óculos inteligentes a admitir desconforto em usá-los em público, com receio de serem julgados ou confrontados apenas por trazerem uma câmara na cara.
O regulador de privacidade australiano, o Office of the Australian Information Commissioner (OAIC), já reconheceu a preocupação pública em torno destes dispositivos e diz estar a acompanhar a situação.
Para já, contudo, limita-se a encaminhar quem tem preocupações para aconselhamento jurídico independente, em vez de tomar medidas concretas.
Entretanto, o facto de os óculos da Kmart terem esgotado mostra que o interesse por wearables com IA é genuíno e está a chegar ao consumidor comum, não apenas a quem gosta e pode pagar gadgets caros.
Contudo, o preço acessível remove uma das últimas barreiras que existiam, nomeadamente o custo elevado, que servia como um filtro para compradores mais conscientes do impacto do produto.
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