Há um país que opera mais de 1190 gigawatts de capacidade a carvão, mais de cinco vezes a dos Estados Unidos da América (EUA), e continua a construir novas centrais a um ritmo recorde, mesmo com a produção de eletricidade a carvão a cair.
Quando se pensa em centrais a carvão, os EUA e a Índia são normalmente os nomes que surgem.
Os primeiros têm décadas de história ligada ao carvão, um combustível que moldou grande parte da sua rede elétrica ao longo do século XX. O segundo, por sua vez, é associado ao carvão pela sua dimensão, pelo crescimento acelerado e pela forte dependência energética deste combustível fóssil.
Hoje em dia, contudo, nenhum dos dois países lidera em matéria de carvão.
China lidera em matéria de carvão
De acordo com dados do Global Energy Monitor, a China operava, em julho de 2025, uma capacidade instalada de centrais a carvão de cerca de 1193,8 gigawatts, mais de cinco vezes a capacidade operacional dos EUA, que ocupam o terceiro lugar na tabela mundial.
A liderança chinesa consolidou-se ao longo das décadas de 2000 e 2010, período em que a procura por eletricidade no país disparou. Nos EUA, a tendência foi inversa: a produção de eletricidade a carvão atingiu o pico em 2007 e tem vindo a cair desde então.
À escala global, mais de 2200 gigawatts de capacidade a carvão estão atualmente em funcionamento, com mais 760 gigawatts em várias fases de desenvolvimento. No entanto, o setor está cada vez mais concentrado:
- Em 2018, os 10 maiores países representavam 83% da capacidade a carvão em desenvolvimento no mundo;
- Em 2026, essa fatia subiu para 96%, com a China e a Índia a somarem, sozinhas, quase 90% do total.
Porque é que a China continua a construir centrais
A procura de eletricidade na China cresceu, em média, cerca de 6,2% ao ano na última década, impulsionada pela urbanização acelerada e pela industrialização, um ritmo que fez o país ultrapassar, em 2025 e pela primeira vez, um terço de toda a procura elétrica mundial.
Neste cenário, o carvão continua a ser a fonte mais rápida e barata de aumentar capacidade, e o inverno de 2021, marcado por cortes de energia que afetaram fábricas em várias regiões, acabou por acelerar ainda mais este processo.
Entre 2022 e 2023, as autoridades aprovaram novos projetos a um ritmo médio de duas centrais por semana, totalizando mais de 100 gigawatts de capacidade licenciada por ano.
Entretanto, em 2025, entraram em funcionamento 78 gigawatts de nova capacidade a carvão, na China, o valor mais elevado numa década, e as propostas de novos projetos (ou reativação de projetos antigos) atingiram um máximo histórico de 161 gigawatts.
Ainda assim, o licenciamento de novos projetos caiu para 45 gigawatts em 2025, o valor mais baixo em quatro anos.
Reservas de carvão para décadas
Segundo a Energy Information Administration (EIA) dos EUA, a China detinha, no final de 2023, cerca de 173,1 mil milhões de toneladas de reservas comprovadas de carvão, a terceira maior reserva do mundo, atrás apenas dos EUA e da Rússia.
Ao ritmo de extração registado em 2023, isso equivale a cerca de 36 anos de fornecimento.
Mais centrais, mas menos eletricidade gerada
Apesar de continuar a construir novas centrais a um ritmo elevado, a China gerou menos eletricidade a partir de carvão em 2025 do que no ano anterior, numa queda de 0,6%, motivada pelo crescimento recorde da energia eólica e solar.
O resultado é que muitas centrais a carvão já operam a apenas metade da sua capacidade máxima. No final de 2025, restavam ainda 291 gigawatts de capacidade a carvão em fase de licenciamento ou construção no país, o equivalente a cerca de 23% da frota atualmente operacional.
Leia também:
China desperdiça tanta energia renovável que poderia alimentar Portugal durante 7 anos





















