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É fiador de um empréstimo? Saiba com rigor os riscos e direitos em Portugal

10 Comentários

Ser fiador de um empréstimo, continua a ser uma decisão de grande responsabilidade. Apesar de muitas vezes surgir num contexto de confiança pessoal ou familiar, a realidade legal e bancária em Portugal torna esta posição potencialmente arriscada. Abaixo fica um guia atualizado, claro e rigoroso, sobre o que deve mesmo saber.

Ilustração de um fiador de um empréstimo

Empréstimo: ser fiador é assumir uma dívida que não é sua

Ao aceitar ser fiador, está a garantir ao banco que a dívida será paga, mesmo que não seja por si contraída.

Na prática:

  • Se o devedor falhar, o banco pode exigir-lhe o pagamento.
  • O seu património e rendimentos podem ser afetados.
  • Pode ficar com o seu nome associado a incumprimentos.

Este enquadramento está previsto no Código Civil Português, que regula a figura da fiança.

Não pode simplesmente deixar de ser fiador

Um dos maiores equívocos é pensar que pode desistir da fiança a qualquer momento. Não pode.

Para deixar de ser fiador, é necessário:

  • acordo do devedor
  • aceitação do banco
  • normalmente, apresentação de nova garantia ou novo fiador

Sem estes três elementos, a sua obrigação mantém-se.

O mito do “benefício da excussão prévia”

A lei prevê que o devedor seja o primeiro a responder pela dívida. No entanto, na prática atual:

  • A maioria dos contratos inclui a cláusula de fiador solidário e principal pagador.
  • Isto significa que o banco pode exigir-lhe diretamente o pagamento, sem recorrer primeiro ao devedor.

Ou seja, embora o direito exista no papel, na maioria dos casos não se aplica.

Se for fiador de alguém e tiver de pagar ao banco prestações em atraso, a lei reconhece-lhe o direito de cobrar essas prestações ao devedor. É como se comprasse a dívida dele. Mas não deixa de ser uma proteção duvidosa, já que um devedor que não tem como pagar ao banco também não vai ter dinheiro para recompensar o fiador.

E se tiver de pagar? Pode recuperar o dinheiro

Se acabar por pagar a dívida:

  • Tem direito a exigir o valor ao devedor.
  • Passa a ser credor dessa dívida.

Contudo, esta proteção é limitada, pois se o devedor não tem capacidade financeira, dificilmente conseguirá recuperar o dinheiro.

Renegociação do crédito: pode libertar o fiador?

Depende. Alterações profundas ao contrato podem exigir novo acordo e eventualmente libertar o fiador. Mas muitas renegociações mantêm todas as garantias iniciais.

Na prática, os bancos tendem a preservar o fiador sempre que possível.

O Banco de Portugal reforçou nos últimos anos:

  • deveres de informação
  • transparência nos contratos
  • avaliação da capacidade financeira dos intervenientes

Ainda assim, não existe proteção especial para fiadores em incumprimento. A responsabilidade mantém-se praticamente igual à do devedor.

Empréstimo: antes de aceitar ser fiador, pense bem

Antes de assinar:

  • Avalie a estabilidade financeira do devedor.
  • Perceba todas as cláusulas do contrato.
  • Confirme se está a abdicar de direitos (como a excussão prévia).
  • Considere o impacto na sua própria capacidade de crédito.

Em resumo…

Ser fiador não é um gesto simbólico. É um compromisso legal sério, com consequências reais. A legislação mantém-se estável, mas a prática bancária evoluiu no sentido de proteger mais as instituições do que os fiadores. Por isso, mais do que nunca, a melhor proteção é a prevenção.

Aceitar ser fiador de um emprestimo deve ser uma decisão ponderada, informada e tomada com plena consciência dos riscos envolvidos.

Comentários

10

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  1. Avatar de Zé Fonseca A.
    Zé Fonseca A.

    Ainda é preciso fiadores? Tinha ideia que tinham acabado com isso porque a casa serve de colateral

    1. Avatar de albino negro
      albino negro

      Continua a haver imensos fiadores e eles deviam ler este artigo.
      muitos pensam que “só assinei” e nao querem assumir as suas responsabilidades.
      Depois na hora da verdade tem surpresas muito desagradáveis.

    2. Avatar de Oraxulo
      Oraxulo

      Infelizmente nesta miséria de país, ainda pedem fiadores para emprestimos, só que o problema é que muitos que se assumem como tal muitas vezes nem tem noção do que se estão a meter e a vida dá muitas voltas e ninguém sabe o dia de amanhã e o que contraiu a divida deixa de pagar e entra o fiador e fica com a vida lixada se a divida for elevada, quantos casos desses se conhece.

      Dai que isto nem deveria ser possível, ou tem meios de contrair o empréstimo sem ter de ter um fiador ou não há nada para ninguém…

      Por essas e por outras que hoje ninguém quer fiador de nada…

    3. Avatar de Max
      Max

      Quando se acabou com a obrigação dos 10% para a compra de casa os fiadores tornaram-se ainda mais importantes para os bancos.

      1. Avatar de Zé Fonseca A.
        Zé Fonseca A.

        Tenho 3 créditos habitação e nunca me pediram fiador, pensei que isso tinha morrido na troika porque passaram a permitir que bastaria dar a casa como colateral em caso de incumprimento

        1. Avatar de Max
          Max

          Depende da análise de risco do banco. Muitos jovens não conseguiam empréstimos bancários por não terem (ou a família por eles) os 10% para a compra da casa, Desde o início de 2025, o estado presta uma garantia dos 10%, o que permite aos bancos (se quiserem) emprestar 100% (em vez de 90%).
          O empréstimo ter passado para 100% aumenta a taxa de esforço (mensalidade em relação ao rendimento) e o risco do contrato não ser cumprido e a casa ter que ser vendida.
          Por isso é que, em muitos casos, com fiador é uma coisa, sem fiador outra.

  2. Avatar de Oraxulo
    Oraxulo

    O termo fiador só deveria ser ao nível empresarial, ao comum mortal nem deveria ter essa opção, ou tem condições ou não há empréstimo para ninguem…

  3. Avatar de Pedro+H.
    Pedro+H.

    O meu conselho para quem está a ponderar ser fiador: Não o sejam! Não importa o quanto confiam na pessoa.

  4. Avatar de PorcoDoPunjab
    PorcoDoPunjab

    PorcoDoPunjab costuma dizer que fiador só dos filhos e é se merecerem.

    Tenho ali dois recos que são decentes mas o outro é uma peste e não me inspira confiança nenhuma num assunto destes.

    Vcs já sabem que PorcoDoPunjab não mistura razão com emoção.
    Tudo é planeado ao pormenor, no que a dinheiro diz respeito…

  5. Avatar de Nunes
    Nunes

    É um conceito tão antigo que já deveria ter sido extinto. Somente servia para interesses de agiotas e prestamistas que, em teoria, já não existem, são ilegais. Na prática, sim. Ainda existem. Coibo-me de avançar para não ofender os defensores do Estado, dos Bancos, das Seguradoras, do …
    Das duas uma: ou há fiadores ou há colaterais, sendo o objeto do empréstimo o colateral. Havendo fiador não haveria colateral e vice versa. Mas a Banca quer tudo e os Governos não fazem nada.