Antes do sistema Volta, quem pagava as garrafas que os portugueses deitavam fora?
Desde 10 de abril de 2026, cada garrafa de plástico ou lata que compramos em Portugal custa mais 10 cêntimos. Isto acontece devido à implementação do sistema Volta, por detrás do qual está um princípio de economia já aplicado há décadas em vários países europeus.
“Olhos não veem, coração não sente”?
Quando uma garrafa acaba no lixo comum ou na rua, o seu impacto não termina aí. Alguém tem de recolher, transportar e tratar esse resíduo, e quando a embalagem acaba num rio ou numa praia, o prejuízo estende-se ao ambiente e à qualidade dos espaços públicos.
No entanto, quem decide deitar fora a embalagem raramente paga por essas consequências, uma vez que esse custo acaba distribuído pelas autarquias, pelos impostos de todos e pelo ambiente.
Em economia, este fenómeno chama-se externalidade negativa: o preço que pagamos por uma bebida não reflete o custo real que a sociedade suporta com o destino final da sua embalagem.
A lógica por trás do depósito
Procurando resolver esta externalidade, o Despacho n.º 432/2026 fixou o valor do depósito em 0,10 € por embalagem, aplicável a garrafas de plástico e latas de alumínio ou aço com menos de três litros, ficando de fora as garrafas de vidro.
Por via dele, paga-se o depósito no ato da compra e recupera-se integralmente ao devolver a embalagem vazia, desde que esteja com o código de barras legível e sem estar amassada, num dos mais de três mil pontos Volta automáticos já instalados em super e hipermercados.
A estes juntam-se soluções de recolha manual em lojas mais pequenas e quiosques dedicados à devolução de grandes volumes, conforme já vimos.
Desta forma, uma decisão que antes não tinha qualquer peso na carteira do consumidor passa a ter uma consequência financeira direta, uma vez que devolver a embalagem compensa e descartá-la implica perder o valor pago.
Apesar do descontentamento de alguns cidadãos e até de autarcas, os números iniciais parecem dar razão à teoria.
Segundo a SDR Portugal, entidade gestora do sistema, foram devolvidas mais de 305 milhões de embalagens nos primeiros cinco meses de funcionamento, entre 10 de abril e 10 de setembro de 2026, com o volume a triplicar apenas nos últimos dois meses.
O que a experiência de outros países mostra sobre o Volta
Conforme também vimos anteriormente, Portugal não é o primeiro país a experimentar este modelo. De facto, ele já existe noutros pontos da Europa há largos anos e os resultados dão uma ideia do seu potencial.
- Na Lituânia, a taxa de retorno estava abaixo dos 34% antes de o sistema arrancar em 2016, tendo subido para cerca de 92% já dois anos depois, valor em que se mantém atualmente.
- Na Irlanda, o sistema lançado em fevereiro de 2024 teve um arranque mais lento, com taxas próximas dos 45% nos primeiros meses. No entanto, depois de sete meses, já rondava os 73% e, mais recentemente, já ultrapassou os 88%.
- Na Noruega, os números mantêm-se estáveis acima dos 92%;
- Na Dinamarca, os dados rondam os 93%;
- Na Finlândia, os números andam perto dos 96%.
- Na Alemanha, cujo sistema funciona desde 2003, os números estão entre 97% e 98%.
Estes números mostram que o mecanismo pode funcionar, com o caso irlandês a servir também de aviso. Ou seja, os primeiros meses tendem a ser os mais fracos e é preciso tempo até o público criar o hábito.
Em Portugal, onde o Volta arrancou em abril de 2026, o sistema está agora nessa fase inicial, pelo que comparações diretas com sistemas já maduros ainda não fazem sentido.
Nem tudo é perfeito desde o primeiro dia
Se a teoria económica é relativamente simples, a aplicação prática costuma ser mais complexa. Mesmo em sistemas maduros há máquinas de recolha que ficam cheias, embalagens rejeitadas por estarem ligeiramente amassadas e diferenças na cobertura dos pontos de recolha entre zonas urbanas e rurais.
A par disto, há ainda quem procure embalagens no lixo apenas para recuperar o valor do depósito, o que pode gerar problemas de higiene urbana.
A própria Alemanha, hoje apontada como exemplo, atravessou dificuldades quando lançou o seu sistema em 2003.
Assim sendo, é expectável que Portugal enfrente uma curva de aprendizagem semelhante.
Leia também:
Sistema Volta com “dores de crescimento”: as falhas detetadas pelo Governo























