Já medimos o sono, os passos e o stress… a próxima métrica de saúde vai ler o cérebro
A tecnologia de interface cérebro-computador (em inglês, BCI) está prestes a sair dos laboratórios e entrar nos headsets de gaming e óculos inteligentes do dia a dia. A empresa Neurable está a apostar num modelo que pode acelerar esta transição, tornando-nos obcecados com as métricas que vêm diretamente do cérebro.
Monitorizar o coração, o sono e o stress já faz parte da rotina de milhões de pessoas que usam smartwatches e pulseiras de fitness. Agora, a próxima fronteira da tecnologia wearable aponta para o cérebro.
A Neurable, empresa norte-americana sediada em Boston, está a avançar com um sistema baseado em eletroencefalograma (EEG) que poderá, em breve, aparecer nos mais variados dispositivos de consumo, desde headsets de gaming a óculos inteligentes, passando por bonés e capacetes.
O que é e como funciona
Ao contrário do que o nome "interface cérebro-computador" pode sugerir, não há aqui nada de invasivo. Por sua vez, o sistema da Neurable utiliza EEG para medir a atividade elétrica do cérebro através de sensores externos colocados na cabeça.
Depois, os sinais recolhidos são processados por modelos de software que estimam métricas como concentração, fadiga cognitiva, ansiedade, prontidão mental e recuperação.
O objetivo não é ler pensamentos, mas traduzir os sinais recolhidos em pontuações e sugestões compreensíveis para o utilizador comum, à semelhança do que já acontece com as métricas de saúde dos smartwatches.
A empresa quer que a experiência seja tão familiar quanto consultar a pontuação de sono ou a variabilidade da frequência cardíaca numa pulseira Fitbit.
Empresa quer chegar a mais produtos
A grande novidade estratégica da empresa é a mudança para um modelo de licenciamento. Em vez de se limitar aos seus próprios auscultadores, a Neurable vai permitir que outras marcas integrem a sua tecnologia nos respetivos produtos.
Um dos primeiros exemplos concretos é um headset de gaming desenvolvido em parceria com a HyperX, mas a empresa não esconde a ambição de ver o seu sistema incorporado numa gama muito mais alargada de dispositivos.
Esta abordagem deve-se ao facto de a empresa considerar que uma adoção em massa de novas tecnologias raramente acontece através de produtos de nicho.
Por sua vez, acontece quando a tecnologia se esconde dentro de algo que as pessoas já compram e já usam sem hesitação. Se foi assim com os sensores de frequência cardíaca nos smartwatches, poderá ser assim com o EEG nos headsets.
Os casos de uso previstos
A Neurable enquadra o seu produto no universo do bem-estar e da otimização pessoal. Os casos de uso avançados pela empresa incluem os seguintes:
- Melhoria do desempenho no gaming;
- Acompanhamento da concentração em contexto escolar;
- Deteção de fadiga em ambiente de trabalho;
- Gestão da recuperação após períodos de sobrecarga cognitiva.
A linguagem usada é deliberadamente próxima da que já existe no mercado dos wearables de saúde. Termos como "prontidão cerebral" ou "carga mental" soam familiares a quem já está habituado a interpretar métricas de recuperação ou de qualidade do sono.
O grande objetivo é que, à medida que mais produtos adotarem este tipo de funcionalidades, uma nova categoria de wearables se consolide naturalmente.
Os senãos desta métrica do cérebro
O conceito não passará despercebido aos entusiastas do bem-estar, especialmente aqueles que gostam de estar verdadeiramente a par das suas métricas.
A par disso, há cada vez mais uma procura genuína por ferramentas que ajudem a identificar sinais de esgotamento, a gerir melhor os ritmos de trabalho e a perceber quando o desempenho cognitivo está comprometido.
Para estudantes, trabalhadores do conhecimento ou jogadores, um dispositivo capaz de fornecer esse tipo de informação de forma fiável teria valor prático evidente.
Contudo, a fiabilidade da tecnologia espoleta as primeiras dúvidas. Métricas cerebrais têm uma aparência de autoridade científica que pode não corresponder à sua precisão real.
O risco de os utilizadores confiarem cegamente em pontuações que são, na prática, estimativas aproximadas é considerável, assim como acontece com os wearables estabelecidos.
Além disso, a privacidade levanta questões ainda mais sérias. Dados sobre o estado mental de uma pessoa são, por natureza, mais sensíveis do que contagens de passos ou registos de sono.
Ainda que a Neurable afirme seguir práticas baseadas no consentimento e orientadas para a privacidade, essas garantias terão de resistir a um escrutínio muito maior à medida que a tecnologia se espalhar por mais marcas e mais produtos.
O cenário mais preocupante ainda é o da fuga de dados, ou da utilização intencional desta tecnologia para fins de vigilância, por exemplo, laboral.
Um sistema pensado para monitorizar a concentração e a fadiga cognitiva poderia ser o tipo de ferramenta que certas empresas poderiam querer usar para avaliar se os seus trabalhadores estão suficientemente atentos e produtivos.
Tecnologia não vai ler pensamentos
De qualquer modo, a Neurable não está a propor implantes nem leitura de pensamentos. Por sua vez, propõe uma tecnologia mais mundana e, por isso mesmo, bem mais provável de acontecer: métricas cerebrais recolhidas por um headset que já conhecemos, vendidas com a mesma linguagem de bem-estar que normalizou o smartwatch.
Resta perceber se os utilizadores vão querer adotar a tecnologia e torná-la tão comum quanto outras que já conhecem.
Imagem: Neurable
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Espétaculo, tudo a trabalhar de headsets na cabeça para os patrões saberem quem são os zombies nas empresas.