Teste genético pode evitar quimioterapia em milhares de doentes com cancro da mama
A medicina continua a acumular conquistas que, há poucos anos, pareciam difíceis de alcançar. Após os resultados promissores de uma injeção capaz de travar cancros agressivos e de uma terapia que duplicou a sobrevivência em doentes com cancro do pâncreas, um novo estudo aponta agora para a possibilidade de evitar a quimioterapia em milhares de pessoas com cancro da mama através de um simples teste genético.
Um grande ensaio clínico internacional concluiu que um teste genético pode ajudar a identificar doentes com cancro da mama que podem evitar a quimioterapia sem comprometer as hipóteses de sobrevivência.
Os resultados foram apresentados na reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO 2026) e poderão alterar a forma como este tipo de cancro é tratado em todo o mundo.
Um teste que analisa a biologia do tumor
O estudo, denominado OPTIMA, foi liderado pela University College London (UCL) e envolveu 4.429 pessoas com cancro da mama em vários países, incluindo Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia, Noruega, Suécia e Tailândia.
A investigação avaliou a utilização do teste genómico Prosigna, que analisa a atividade de 50 genes presentes no tumor.
O Prosigna é um teste genómico que analisa a atividade de 50 genes presentes no tumor da mama. Com base nesses dados, calcula o risco de recorrência da doença e ajuda os médicos a decidir se a doente beneficiará da quimioterapia ou se poderá ser tratada apenas com terapêutica hormonal.
O teste Prosigna é utilizado sobretudo em doentes com:
- Cancro da mama em fase inicial;
- Tumores positivos para recetores hormonais (HR+);
- Tumores HER2 negativos;
- Ausência de gânglios afetados ou envolvimento reduzido dos gânglios linfáticos.
O objetivo foi perceber quais os doentes que realmente beneficiam da quimioterapia após a cirurgia e quais podem ser tratados apenas com terapêutica hormonal, evitando os efeitos secundários associados à quimioterapia.
Resultados mostram eficácia semelhante sem quimioterapia
Os resultados revelaram que os doentes classificados pelo teste como tendo baixo risco de recorrência apresentaram uma taxa de sobrevivência livre de cancro aos cinco anos de 93,7%, muito próxima dos 94,9% observados nos doentes que receberam quimioterapia.
A diferença foi considerada estatisticamente irrelevante, demonstrando que muitos destes doentes podem prescindir do tratamento mais agressivo.
Segundo os investigadores, mais de dois terços dos participantes avaliados através do teste conseguiram evitar a quimioterapia sem aumento do risco de recidiva da doença.
Menos efeitos secundários e medicina mais personalizada
A quimioterapia continua a ser uma ferramenta fundamental no tratamento do cancro da mama, mas está associada a efeitos adversos significativos, como fadiga extrema, infertilidade, problemas cognitivos, náuseas e queda de cabelo.
Os responsáveis pelo estudo defendem que os resultados representam um avanço importante na medicina personalizada, permitindo adaptar os tratamentos às características biológicas de cada tumor, em vez de utilizar critérios clínicos mais genéricos.
O professor Rob Stein, investigador principal do ensaio OPTIMA, afirma que os dados mostram ser possível "identificar quem realmente beneficia da quimioterapia e quem não beneficia", reduzindo tratamentos desnecessários e melhorando a qualidade de vida dos doentes.
Um estudo que poderá mudar as recomendações clínicas
Embora os resultados tenham sido apresentados na ASCO 2026 e ainda aguardem publicação completa numa revista científica de referência, vários especialistas já classificam o ensaio como potencialmente transformador para a prática clínica.
Caso os dados sejam incorporados nas futuras recomendações médicas, milhões de pessoas com cancro da mama hormonossensível poderão evitar tratamentos agressivos sem comprometer as probabilidades de cura.
Fonte original do estudo: apresentação dos primeiros resultados do ensaio clínico de fase III OPTIMA na ASCO 2026.





















