Injeção que conseguiu travar cancros agressivos vai ser testada em cinco hospitais portugueses
Um tratamento para o cancro que surpreendeu a comunidade científica mundial vai ser testado em doentes portugueses ainda este mês. Os resultados já obtidos são descritos como "sem precedentes".
Conheça o amivantamab
O amivantamab é um medicamento desenvolvido pela Johnson & Johnson que foi originalmente concebido para tratar o cancro do pulmão de não pequenas células, o tipo mais comum de cancro do pulmão.
Já estava em uso clínico nessa indicação com bons resultados, quando os investigadores começaram a perceber que poderia ter aplicação noutros tipos de cancro, nomeadamente da cabeça e do pescoço, com resultados que surpreenderam a comunidade científica.
O mecanismo é de ação tripla, bloqueando o EGFR (recetor do fator de crescimento epidérmico), uma proteína que alimenta o crescimento dos tumores, e o MET, uma via que as células cancerígenas usam para fugir ao tratamento, e ativando ainda o sistema imunitário do próprio doente.
Resultados "sem precedentes"
Os resultados foram apresentados na conferência anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (em inglês, ASCO), em Chicago, e mostram que o amivantamab proporcionou respostas excecionalmente fortes em doentes cuja doença se tinha tornado resistente à quimioterapia e à imunoterapia.
Num ensaio com 102 doentes com cancro da cabeça e do pescoço recorrente ou metastático, o tumor encolheu em 43 casos. Destes, houve 15 em que a resposta foi total, e o cancro desapareceu.
Outro aspeto relevante é a forma de administração, pois, ao contrário da maioria dos tratamentos oncológicos, o amivantamab é injetado sob a pele em vez de por via intravenosa, tornando o processo mais rápido e cómodo para o doente, além de mais fácil de realizar em ambulatório.
Os efeitos secundários foram geralmente ligeiros a moderados, e menos de 10% dos doentes precisaram de interromper a terapia.
Cinco hospitais portugueses no ensaio de Fase III
Segundo avançado, Portugal vai integrar a próxima fase do estudo. O ensaio OrigAMI-5, já em curso, envolve 500 doentes de diferentes países, com recrutamento aberto nos seguintes hospitais portugueses:
- Santa Maria;
- CUF Descobertas;
- Portimão;
- IPO do Porto;
- ULS Gaia-Espinho.
O primeiro doente vai ser incluído no ensaio já em junho, no Hospital CUF Descobertas, de acordo com Diogo Alpuim Costa, oncologista e investigador principal do ensaio em Portugal, ao Expresso.
O contexto nacional justifica a urgência: em Portugal, são diagnosticados entre 2500 e 3000 novos casos de cancro da cabeça e pescoço por ano, sendo que mais de metade surgem já em fase avançada.
De ressalvar que o estudo clínico se focou especificamente em cancros da cabeça e do pescoço não associados ao HPV, geralmente mais difíceis de tratar, tornando os resultados ainda mais significativos.
Esperança renova-se a cada resultado promissor
O potencial do amivantamab não se limita a um único tipo de cancro. O fármaco está a ser testado noutros tipos de tumor, incluindo pulmão, colorretal, gástrico e cerebral, em cerca de 60 ensaios clínicos a decorrer em todo o mundo.
Os resultados atuais são promissores, mas os investigadores sublinham que ainda há caminho a percorrer até à aprovação clínica generalizada.
Pela primeira vez em muito tempo, contudo, doentes com cancros considerados incuráveis têm motivos reais para olhar para o futuro com esperança, e Portugal fará parte dessa história.
Imagem: Ivendrell, via Wikipedia





















Excelente notícia!! Estaremos finalmente a ver uma luz difusa ao fundo do túnel??
É apenas uma evolução positiva na luta contra o cancro, como tantas outras que tem vindo a acontecer ao longo dos anos, neste caso é para alguns tipos de cancro na cabeça e pescoço, com resultados preliminares muito encorajadores.
Está tudo a embandeirar em arco. Para já, o que se sabe é que a esperança média de vida destes doentes aumenta em média 12,5 meses.
São esses os dados apontados, mas pode acontecer que nesses 12,5 meses haja um desenvolvimento de outro produto atualmente em ensaios e que venha a dar mais uma oportunidade de prolongar esse tempo de vida. Não é de facto a solução para todos os problemas, mas é uma esperança para quem já esteja a ver a vida por um fio. Aqui todo o desenvolvimento é bem empregue.