Fez-se história neste planeta errante do tamanho de Saturno a vaguear pela Via Láctea
Astrónomos conseguiram, pela primeira vez, medir diretamente a massa e a distância de um planeta errante, um feito alcançado graças a uma combinação rara de sorte e sincronização perfeita entre observações terrestres e espaciais.
Estas descobertas, estes saltos no conhecimento, aprofundam o muito que desconhecemos do Universo. Contudo, permitem, ao mesmo tempo, ter a noção do caminho a seguir, para tentarmos perceber onde estamos, e para onde vamos.
Este planeta errante, com dimensões semelhantes às de Saturno, encontra-se a cerca de 10.000 anos-luz da Terra.
Planetas sem estrela: um mistério antigo
Os chamados planetas errantes, ou free-floating planets, são mundos que não orbitam qualquer estrela ou que seguem órbitas extremamente distantes. A sua existência é conhecida há décadas, mas a fraca emissão de luz torna-os difíceis de detetar e quase impossíveis de caracterizar com precisão.
As teorias sobre a sua origem são várias. Alguns poderão ter sido expulsos violentamente dos seus sistemas planetários originais, devido a interações gravitacionais. Outros poderão nunca ter pertencido a um sistema estelar, formando-se diretamente a partir de nuvens de gás e poeira, de forma semelhante às anãs castanhas.
Estimativas preliminares sugerem que poderá existir pelo menos um planeta errante por cada estrela da Via Láctea, havendo estudos que apontam para números ainda mais elevados.

Ilustração de um evento de microlente gravitacional, onde a passagem de um planeta errante deforma o espaço-tempo e faz desviar a luz de uma estrela distante, permitindo a sua deteção a partir da Terra.
Como foi possível medir este planeta
A deteção foi feita através de um fenómeno chamado microlente gravitacional. Quando um planeta passa em frente a uma estrela distante, a sua massa curva o espaço-tempo, provocando um ligeiro aumento temporário do brilho da estrela de fundo.
Este evento específico foi observado por dois projetos independentes, a Korea Microlensing Telescope Network e o Optical Gravitational Lensing Experiment.
De forma excecional, o fenómeno foi também registado pelo satélite Gaia, que o observou seis vezes ao longo de um período de 16 horas.
Esta coincidência foi decisiva, uma vez que o Gaia observa normalmente a mesma região do céu com intervalos muito maiores.
A diferença temporal entre as observações feitas a partir da Terra e do espaço permitiu calcular, com precisão inédita, a distância e a massa do planeta.
Pela primeira vez, temos uma medição direta da massa de um candidato a planeta errante e não apenas uma estimativa estatística aproximada.
Temos a certeza de que é um planeta.
Explicou o autor principal Subo Dong, da Universidade de Pequim, num comunicado.
O que se sabe sobre este mundo solitário
A análise combinada dos dados revelou que o planeta tem uma massa comparável à de Saturno, cerca de um quinto da massa de Júpiter. Encontra-se a aproximadamente 10.000 anos-luz da Terra e a cerca de 3.000 parsecs do centro da Via Láctea.
Devido ao seu tamanho relativamente reduzido, os investigadores consideram provável que se tenha formado num disco protoplanetário, antes de ser expulso do seu sistema original.

Poderá existir pelo menos um planeta errante por cada estrela da Via Láctea, havendo estudos que apontam para números ainda mais elevados.
O futuro da caça aos planetas errantes
Apesar de existirem ainda poucos casos documentados, os cientistas esperam que novas missões venham a mudar este cenário. O lançamento do telescópio espacial Nancy Grace Roman, da NASA, previsto para 2027, deverá aumentar significativamente o número de deteções.
Segundo investigadores envolvidos no estudo, estas descobertas demonstram a eficácia da técnica de microlente gravitacional e mostram como os planetas errantes podem fornecer pistas fundamentais sobre os processos de formação e evolução dos sistemas planetários.





















