Pela primeira vez, um responsável oficial dos Estados Unidos da América (EUA) confirmou publicamente que o país tem armas colocadas em órbita.
O secretário da Força Aérea dos EUA, Troy Meink, afirmou que o país “tem agora armas de controlo espacial em órbita, capazes de defender as forças conjuntas contra ações hostis de adversários”.
A frase, dita em tom quase casual no meio de um discurso mais alargado sobre modernização militar, durante uma conferência da Air & Space Forces Association, foi depois confirmada como intencional. Segundo Meink, a formulação tinha sido “muito bem pensada”.
Contudo, o secretário da Força Aérea não esclareceu o que são exatamente essas armas, nem o tipo, nem a quantidade, nem a data em que foram colocadas em órbita. O Departamento da Força Aérea também não acrescentou pormenores.
Durante anos, China, Rússia e EUA acusaram-se mutuamente de armar o espaço, negando sempre fazê-lo. Ao admitir agora ter armas em órbita, Washington parece dar razão às acusações que sempre rejeitou.
O que pode ser uma “arma de controlo espacial”?
Conforme explicado por Cassandra Steer, diretora-executiva do Australasian Centre for Space Governance e especialista associada da Escola de Segurança Nacional da Universidade Nacional da Austrália, o termo “controlo espacial” não é novo, surgindo de doutrinas militares norte-americanas que há muito falam em procurar “superioridade” e “domínio” no espaço.
Segundo a doutrina da Space Force, o controlo espacial inclui operações ofensivas e defensivas, conhecidas como “contraespaço”.
Há três hipóteses principais sobre o que estas armas podem ser:
- Armas nucleares ou de destruição maciça são a opção menos provável
O Tratado do Espaço Exterior, de 1967, proíbe colocar este tipo de armamento em órbita, e testes feitos nos anos 1960 mostraram que a radioatividade resultante afeta os próprios satélites de quem as usa, um argumento prático, e não só legal, contra esta via.
- Armas cinéticas, ou seja, dispositivos físicos capazes de embater ou danificar outros satélites, não são proibidas pelo tratado
Já houve testes deste tipo no passado, e a China demonstrou em 2022 conseguir acoplar-se a um satélite inativo e deslocá-lo para uma órbita distante,uma tecnologia que tanto pode remover lixo espacial como neutralizar um satélite ativo.
No entanto, não há provas de que os EUA tenham esta capacidade.
- Reclassificação de capacidades já existentes, como sistemas de interferência de sinal ou guerra eletrónica
Segundo vários especialistas em segurança espacial, esta é a explicação mais provável. Isto significaria que a novidade não é tecnológica, mas sim política: uma forma de afirmar poder e dissuadir a Rússia e a China de interferirem com satélites norte-americanos.
Uma admissão com consequências
Seja qual for a resposta, a declaração já está a ter efeitos diplomáticos. O Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês citou as palavras de Meink como prova da “militarização do espaço exterior” pelos EUA, transformando-o num “campo de batalha” e alimentando uma corrida ao armamento.
Por sua vez, a Rússia reiterou o apelo a manter o espaço “livre de armas”.
De facto, satélites são essenciais tanto para operações militares como para o dia a dia civil, com GPS, internet, comunicações, banca e transporte global a dependerem deles.
Ora, um ambiente espacial hostil aumenta o risco de ataques a estas infraestruturas, com consequências que ultrapassam largamente o domínio militar.
Desde 2008, a China e a Rússia têm proposto um tratado internacional para proibir a colocação de armas no espaço, uma iniciativa que os EUA e aliados sempre recusaram negociar, alegando ser praticamente impossível definir e verificar o que conta como “arma espacial”.
Além disso, os EUA deixaram, desde 2023, de apoiar a resolução anual da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a prevenção de uma corrida ao armamento no espaço, um afastamento gradual das negociações multilaterais sobre o tema.





















