Cientistas injetam fluido magnético no coração e acreditam que pode prevenir AVC
Uma nova abordagem experimental poderá mudar a forma como se previnem acidentes vasculares cerebrais (AVC) em doentes com fibrilhação auricular. Investigadores estão a testar a injeção de um fluido magnético diretamente no coração, capaz de selar uma zona crítica onde se formam coágulos perigosos.
Os primeiros resultados, ainda em animais, são promissores.
Fibrilhação auricular: um risco silencioso
A fibrilhação auricular é uma perturbação do ritmo cardíaco que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Em vez de bater de forma coordenada, as cavidades superiores do coração contraem-se de forma irregular.
Embora os sintomas possam ser ligeiros, como palpitações, fadiga ou falta de ar, o maior risco é outro: a formação de coágulos que podem levar a um AVC.
No interior do coração existe uma pequena bolsa chamada apêndice auricular esquerdo. Quando o ritmo cardíaco é irregular, o sangue pode acumular-se nessa zona e formar coágulos. Se um desses coágulos viajar até ao cérebro, pode bloquear o fluxo sanguíneo e provocar um AVC.
Estima-se que a fibrilhação auricular aumente em cerca de cinco vezes o risco deste tipo de evento.

Em Portugal, o Acidente Vascular Cerebral continua a ter um peso significativo na saúde pública. Estima-se que cerca de 25 mil pessoas sofram um AVC todos os anos, o que equivale a aproximadamente três casos por hora. No que diz respeito à mortalidade, em 2022 registaram-se cerca de 9.600 mortes associadas a esta condição, representando aproximadamente 7,7% de todas as mortes no país.
AVC: tratamentos atuais têm limitações
Atualmente, a principal estratégia passa pelo uso de anticoagulantes, medicamentos que reduzem a capacidade de coagulação do sangue. Embora eficazes, aumentam o risco de hemorragias, o que pode ser problemático, sobretudo em idosos ou doentes com outras patologias.
Existe também uma alternativa mecânica: a oclusão do apêndice auricular esquerdo. Neste procedimento, é implantado um dispositivo que funciona como uma espécie de “tampão”.
No entanto, estes dispositivos não são perfeitos. A anatomia do apêndice varia muito entre pessoas, o que pode impedir um selamento completo. Em alguns casos, continuam a existir fugas de sangue ou formação de coágulos na superfície do implante.
Um gel magnético que sela o coração
A nova técnica segue um caminho diferente. Em vez de um dispositivo rígido, os investigadores utilizam um fluido magneticamente controlado, injetado através de um cateter diretamente no apêndice auricular.
Com a ajuda de um campo magnético externo, o líquido é guiado e mantido no local, preenchendo completamente a cavidade. Em poucos minutos, reage com o sangue e transforma-se num gel macio, denominado “magnetogel”.
Este gel adapta-se perfeitamente à forma irregular do apêndice, criando um selamento mais completo do que os métodos atuais. Além disso, parece integrar-se com o revestimento interno do coração, formando uma superfície uniforme que reduz o risco de novos coágulos.
Resultados promissores em animais
Os testes foram realizados inicialmente em ratos e depois em porcos, um modelo relevante devido à semelhança do coração com o humano.
Nos estudos com porcos, o gel manteve-se estável durante 10 meses, sem sinais de fugas ou formação de coágulos. O revestimento interno do coração cresceu sobre o material, criando uma camada aparentemente saudável.
Comparado com dispositivos metálicos tradicionais, o magnetogel mostrou uma integração mais suave e evitou danos nos tecidos causados pelos mecanismos de fixação.
Ainda longe da aplicação em humanos
Apesar dos resultados encorajadores, esta tecnologia está ainda numa fase experimental. Antes de avançar para ensaios clínicos em humanos, será necessário garantir a sua segurança a longo prazo e resolver vários desafios técnicos.
Um dos problemas identificados é a interferência do material magnético em exames de ressonância magnética, o que pode dificultar a observação do coração.
Além disso, o processo de aprovação de dispositivos médicos é rigoroso e pode demorar vários anos.
Um potencial avanço na prevenção de AVC
Se vier a provar-se segura e eficaz em humanos, esta técnica poderá oferecer uma alternativa relevante para doentes que não toleram anticoagulantes e melhorar as limitações dos dispositivos atuais.
Tendo em conta que a fibrilhação auricular afeta dezenas de milhões de pessoas, mesmo pequenos avanços na prevenção de AVC poderão ter um impacto significativo na saúde global.
Portanto, para já, o magnetogel permanece uma inovação de laboratório, mas revela o potencial crescente da engenharia biomédica na resolução de desafios complexos da cardiologia.




















