Segundo o World Alzheimer Report 2026, a doença já não pode ser descrita como intratável, graças aos avanços recentes em fármacos, diagnóstico e prevenção de risco.

Durante décadas, a doença de Alzheimer foi vista como uma consequência praticamente inevitável do envelhecimento, para a qual a medicina apenas oferecia controlo de sintomas.
O World Alzheimer Report deste ano, elaborado pela Alzheimer’s Disease International (ADI) em conjunto com o jornalista de saúde Paul Gallagher, sustenta que essa fase chegou ao fim.
Segundo os autores, a doença começa agora a ser entendida como uma condição em que o diagnóstico precoce, o conhecimento mais aprofundado da sua biologia e um leque mais alargado de intervenções terapêuticas podem, em conjunto, melhorar significativamente os resultados clínicos dos doentes.
Intitulado “A New Era in Dementia Clinical Trials”, o documento compara este momento ao que a oncologia viveu na década de 1990, quando as primeiras terapias contra o cancro, apesar de limitadas, abriram caminho a combinações de fármacos mais eficazes e à medicina de precisão que conhecemos atualmente.

Os primeiros fármacos que alteraram o curso da doença
Um dos marcos mais citados no relatório é a aprovação do donanemab e do lecanemab, os primeiros medicamentos a demonstrar capacidade de retardar, ainda que de forma modesta, a progressão do Alzheimer em fase inicial, e não apenas atenuar os seus sintomas.
Segundo Cath Mummery, diretora da Dementia Trials Network no Reino Unido, citada no relatório, apesar de se esperar um efeito mais expressivo, tratou-se de um momento decisivo por ter provado, pela primeira vez, ser possível alterar o curso da doença.
Por outro lado, vários investigadores continuam a questionar se estes fármacos trazem benefícios clinicamente relevantes, uma vez que a resposta ao tratamento varia consoante o doente e a área do cérebro afetada.
Ainda assim, o relatório considera que a aprovação destes dois medicamentos representa um ponto de viragem positivo, que alterou as expectativas sobre aquilo que a investigação em demência poderá vir a alcançar. Em números, sabe-se que, na última década, o número de fármacos candidatos em investigação para a demência aumentou cerca de 40%.
Atualmente, estão em avaliação 158 terapias potenciais, distribuídas por 192 ensaios clínicos em todo o mundo, e este ano deverão ser conhecidos os resultados de oito ensaios de Fase III.

Prevenção e diagnóstico são os verdadeiros desafios
Paralelamente aos avanços farmacológicos, o relatório destaca o papel da prevenção. Segundo orientações recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), baseadas na atualização de 2024 da Lancet Commission on dementia, até 45% dos casos de demência poderão ser evitados ou adiados através da gestão de 14 fatores de risco modificáveis ao longo da vida, de entre os quais:
- Hipertensão;
- Depressão;
- Sedentarismo;
- Tabagismo;
- Diabetes;
- Consumo excessivo de álcool;
- Colesterol elevado.
No entanto, o maior obstáculo identificado no relatório da ADI não está na farmacologia, mas no acesso ao diagnóstico. Aliás, a neurorradiologista Emer MacSweeney, também citada no relatório, alerta que muitos doentes em fase inicial da doença acabam por ser ignorados, uma fase em que o tratamento ainda pode fazer diferença, mas que dura pouco tempo.
Neste cenário, os testes sanguíneos capazes de detetar biomarcadores associados à demência surgem como uma possível solução, ainda que continuem a carecer de validação em larga escala.


















