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Água na Lua pode não chegar para as cidades do futuro

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Fala-se cada vez mais em estabelecer uma presença humana permanente na Lua. Primeiro, com bases de investigação; depois, talvez com pequenas cidades no satélite natural da Terra. Mas antes de erguer essas povoações, há uma pergunta essencial: existirá água suficiente para abastecer quem lá viver?

Ilustração de uma cidade na Lua que consome água

A Lua poderá ter mil milhões de toneladas de água sob a forma de gelo. Mas esta reserva aparentemente gigantesca poderá ser insuficiente para sustentar grandes cidades durante várias gerações. Mesmo com uma reciclagem de 98%, uma população de um milhão de habitantes poderia esgotá-la em cerca de um século.

A possibilidade de viver na Lua levanta desafios que vão muito além de construir foguetões, habitações ou estradas. Há um recurso essencial que poderá limitar a dimensão das futuras povoações: a água.

Onde está a água da Lua?

Durante muito tempo, a Lua foi considerada um mundo seco. Contudo, as observações realizadas por sondas revelaram indícios de gelo, sobretudo nas regiões próximas dos polos.

Esse gelo encontra-se em zonas extremamente frias, incluindo crateras cujos fundos nunca recebem luz solar direta. Estas regiões permanentemente à sombra funcionam como armadilhas de frio, permitindo conservar água congelada durante milhares de milhões de anos.

As estimativas variam, mas poderá existir até mil milhões de toneladas de gelo nestas crateras. É uma quantidade impressionante, embora não deva ser confundida com uma reserva já totalmente identificada e pronta a explorar.

Para uma futura povoação, a questão seria conseguir localizar, extrair e utilizar essa água, mantendo o consumo dentro dos limites dos recursos disponíveis.

Este mapa mostra a distribuição das regiões permanentemente na sombra (PSRs), a azul, em torno do polo sul lunar. As PSRs estendem-se até cerca de 80 graus de latitude sul. O mapa de elevação provém do instrumento Lunar Orbiter Laser Altimeter, a bordo da sonda Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO) da NASA. É nestas regiões que foram encontradas evidências de gelo de água. Imagem via NASA/GSFC/Timothy P. McClanahan.

Uma cidade precisa de muito mais do que água para beber

Numa cidade lunar, a água teria de responder a várias necessidades: consumo humano, higiene, produção de alimentos e funcionamento dos sistemas de suporte de vida.

Por isso, avaliar a duração das reservas exige olhar para o conjunto das atividades de uma população. Uma cidade com um milhão de habitantes teria necessidades muito diferentes das de uma pequena base científica.

Segundo os cálculos apresentados, povoações de menor dimensão poderiam dispor de água durante mais de mil anos. Já uma grande cidade colocaria uma pressão muito superior sobre as mesmas reservas.

O problema não é apenas a quantidade de água disponível no início, mas a quantidade que se perde continuamente ao longo do tempo.

Reciclar 98% da água pode não ser suficiente

A reciclagem seria indispensável para qualquer presença humana prolongada na Lua. Na Estação Espacial Internacional já foi alcançada uma recuperação de 98% da água, um valor usado como referência no cenário analisado.

Ainda assim, recuperar 98% significa que existe uma parcela que precisa de ser reposta. Multiplicadas por uma grande população e acumuladas ao longo de décadas, essas perdas tornam-se significativas.

Mesmo com esse nível de eficiência, os investigadores estimam que uma cidade com um milhão de habitantes poderia esgotar a reserva considerada em cerca de um século.

Esta conclusão depende das hipóteses adotadas para a disponibilidade de água e para o consumo. Não significa que todas as futuras bases lunares tenham um prazo de validade semelhante, mas mostra por que razão uma elevada taxa de reciclagem não garante, por si só, sustentabilidade permanente.

Ilustração de uma cidade na Lua que consome água
Os astrónomos Martin Elvis e Jonathan McDowell analisaram esta questão num estudo publicado a 14 de setembro de 2026 na Frontiers in Space Technologies. Os resultados sugerem que os recursos hídricos considerados poderão sustentar pequenas comunidades durante longos períodos, mas colocam limites à manutenção de cidades com milhões de habitantes.

A energia poderá ser um obstáculo menor

Apesar de os fundos de algumas crateras permanecerem na escuridão, existem zonas elevadas próximas dos polos que recebem luz solar durante grande parte do tempo.

Os investigadores consideram que seria possível aproveitar essas condições com estruturas cobertas de painéis solares, que poderiam atingir um quilómetro de altura. No cenário descrito, estas instalações permitiriam gerar cerca de três gigawatts de potência.

Construir infraestruturas desta dimensão na Lua seria um desafio de engenharia considerável. Ainda assim, a análise aponta para a água como uma limitação mais apertada do que a disponibilidade de energia.

O futuro poderá passar por povoações mais pequenas

O estudo não exclui a possibilidade de uma presença humana duradoura na Lua. Mostra, sobretudo, que a dimensão das povoações terá de ser compatível com os recursos existentes.

Para sustentar grandes cidades durante períodos muito mais longos, seria necessário reduzir substancialmente as perdas nos sistemas de reciclagem ou descobrir reservas de água muito superiores às consideradas.

A diferença entre manter uma pequena comunidade e abastecer um milhão de habitantes é, por isso, decisiva. Antes de planear metrópoles lunares, será necessário conhecer melhor o gelo disponível e perceber quanto dele pode ser efetivamente aproveitado.

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  1. Avatar de LMR
    LMR

    Vai haver futuro?