A Terra vai voltar a congelar. Mas a humanidade pode estar a adiar a próxima glaciação
A Terra já passou por grandes glaciações e os seus ciclos naturais ajudam a explicar como o gelo pode voltar a avançar. Mas há um elemento a alterar esta história, sim, o dióxido de carbono que libertamos para a atmosfera. As consequências podem prolongar-se por dezenas de milhares de anos.
Ao longo da sua história, a Terra alternou entre fases mais quentes e períodos em que enormes mantos de gelo cobriram extensas regiões continentais. Os mecanismos naturais que ajudam a explicar essas mudanças continuam ativos.
Contudo, a atividade humana acrescentou uma variável capaz de alterar a evolução do clima num futuro muito distante. Uma nova glaciação poderá fazer o gelo avançar novamente sobre grandes áreas. Isso não significa que todo o planeta vá ficar congelado, nem que exista uma data marcada para essa transformação.
Ainda vivemos numa era do gelo?
Pode parecer estranho falar de uma era do gelo num planeta que está a aquecer. No entanto, uma fase interglaciar é precisamente um intervalo relativamente quente entre períodos de maior expansão do gelo.
O Quaternário começou há cerca de 2,58 milhões de anos. Atualmente, vivemos no Holocénico, iniciado há aproximadamente 11.700 anos, após o fim do último período glaciar.
A existência deste intervalo quente não significa que os grandes mantos de gelo tenham desaparecido, basta olhar para a Gronelândia e para a Antártida.
Neste contexto, falar da próxima glaciação significa falar de uma nova fase de expansão dos mantos de gelo. Mesmo durante um período glaciar, não é necessário que toda a superfície terrestre fique coberta de gelo.
A órbita da Terra ajuda a marcar o ritmo
O nosso planeta não mantém exatamente a mesma configuração enquanto viaja em torno do Sol. A forma da órbita, a inclinação do eixo e a orientação desse eixo variam lentamente. São os chamados ciclos de Milankovitch.
Essas alterações modificam a distribuição da energia solar ao longo das estações e das latitudes. Para o crescimento dos mantos de gelo, os verões nas latitudes elevadas do hemisfério norte têm especial importância: se forem suficientemente frescos, uma parte da neve pode sobreviver de um ano para o outro e acumular-se.
Não se trata, portanto, de um inverno particularmente rigoroso. Falamos de processos que se desenrolam ao longo de milhares de anos, com a participação dos oceanos, da atmosfera e do próprio gelo. A NASA explica como estes ciclos ajudam a regular a alternância entre fases glaciares e interglaciares.

Quando poderá começar a próxima glaciação?
Não há uma data consensual. Os resultados dependem do método utilizado, dos pressupostos sobre o ciclo do carbono e da influência humana considerada.
Em fevereiro de 2025, uma equipa liderada pela Universidade de Cardiff apresentou uma análise dos ciclos climáticos do último milhão de anos. A investigação apontou para uma possível transição natural dentro de cerca de 10 mil anos. Os próprios investigadores salientaram, porém, que as emissões humanas tornam esse cenário muito improvável nesse prazo.
Já um estudo publicado em dezembro de 2025 na Communications Earth & Environment simulou a evolução do clima, do carbono e dos mantos de gelo. No seu cenário de referência sem emissões humanas, o início da próxima glaciação surgia dentro de aproximadamente 50 mil anos.
Estas estimativas não são datas de calendário que possam ser tratadas como certezas. São resultados científicos obtidos com abordagens diferentes.
O CO₂ pode mudar o calendário do gelo
O mesmo estudo de dezembro de 2025 mostra a importância das emissões acumuladas. No cenário de 1.000 mil milhões de toneladas de carbono emitidas, o início da glaciação era adiado para cerca de 100 mil anos no futuro. A unidade refere-se à massa de carbono, não à massa de CO₂.
Há ainda uma nuance relevante. No cenário de 500 mil milhões de toneladas de carbono, usado pelos autores para representar as emissões históricas, o adiamento era pouco provável. Ou seja, a intensidade do efeito depende da quantidade emitida e da evolução do carbono no sistema terrestre.

Adiar o gelo não elimina o aquecimento atual
Uma possível glaciação daqui a milhares de anos não contraria o aquecimento que observamos hoje. São escalas temporais diferentes. A NASA reúne evidências do aumento da temperatura global, do aquecimento dos oceanos e da perda de gelo associada às alterações climáticas atuais.
O que torna esta investigação particularmente relevante é o alcance temporal da influência humana. As decisões sobre emissões podem deixar uma marca que ultrapassa largamente os próximos séculos e interfere com a própria evolução dos ciclos glaciares.
A próxima grande expansão do gelo continua a ser uma possibilidade no futuro da Terra. Quando acontecerá depende tanto dos mecanismos naturais do planeta como do carbono que a humanidade acrescentar à atmosfera.



















